Quando a minha mãe me descrevia na adolescência, havia a comparação com o meu irmão. As pessoas achavam supernormal que ele saísse, voltasse de madrugada, porque “faz parte da fase”. Quando o foco mudava para mim, era sempre: ah, ela nunca foi de sair, gosta de ficar em casa. Isso nunca me incomodou, porque era – e ainda é – uma parte de mim. Entrei em uma balada uma única vez, com duas amigas. Ficamos lá dentro somente uns 10 minutos, nem lembro bem o porquê. Mas lembro da luz amarelada, da música alta e de me sentir como uma observadora-narradora. O que estou vendo? Será que gosto disso? Não, não gosto. Esse lugar é estranho. Não tem nada a ver comigo.

Pula para hoje, mas a narrativa é uma igual constante. Hoje, entendo melhor os porquês de nunca ter tido interesse em ficar em uma fila para entrar num lugar pequeno e cheio de gente que vai esbarrar em você, enquanto você tenta respirar em meio a uma batida que anula todo o som do seu coração.

Lidar com a ansiedade é sempre lembrar que você vai evitar gatilhos, mas também que não tem controle sobre o ambiente externo. Então, é sempre aguardar uma surpresa que vai pular na sua cara e te fazer segurar o choro em situações que não tem, exatamente, por que chorar. Ou, então, você vai ficar hiperventilando que nem um cachorro asmático enquanto tenta voltar o seu foco para algo que diga que você vai sobreviver.

Ter ansiedade é saber que você gosta muito da sua zona de conforto. O máximo que eu faço, por exemplo, é ir a bares intimistas em aniversários de amigas (e é claro que isso significa lidar com pessoas desconhecidas que não faço a mínima ideia se sabem que eu existo). Mas ok, isso dá para controlar. É um gatilho do tamanho de um pequinês, ainda não é um rottweiler.

Eu costumo ir às mesmas lojas e restaurantes, porque reconheço as pessoas que trabalham lá. É fácil me sentir confortável e familiarizada com os Em que posso ajudar?, O que achou do almoço de hoje?, O que aconteceu com o seu cachorrinho?

O conforto é meio traiçoeiro, com certeza, porque ele denota, também, bem-estar. E, às vezes, nem sempre encontro isso. Algumas vezes, o script muda por alguns segundos e eu sinto que preciso sair da zona o mais rápido possível. Uma simples coisinha nova – o meu lugar preferido estar ocupado, por exemplo – pode se tornar um rottweiler até o final da cena.

Sair da zona de conforto é ilimitado, você pode pensar. E, sim, você está certo. Mas estar nessa zona não é o oposto – estar limitado. Acontece que os padrões repetidos, muitas vezes, ajudam a mente. Fazer o mesmo trajeto até o trabalho. Se encontrar com a mesma pessoa que você sabe que vai te ouvir. Ter a mesma rotina noturna. Preparar o mesmo café da manhã. Estar confortável nessas situações é saber que elas são benéficas. Tem um pouco de autoproteção, óbvio. Porque fazer o que a gente sabe que vai dar certo é sempre saber que os riscos são pequenos – não vamos chegar atrasadas praquela reunião de setor, não vamos investir nosso tempo em alguém que acha que a vida é uma competição, não vamos desregular o sono e não vamos ficar com fome depois. Nós queremos colher consequências positivas e o conforto ajuda a conquistar essa estabilidade.

Eu não diria que existe o medo puro e verdadeiro. A zona de conforto é muito mais sobre cautela e sobre estar preparada. Sobre conhecer seus limites, também. Quando a gente se conhece nasce um respeito mútuo entre coração e mente. Acabamos escolhendo o igual e o imutável para dizer que sabemos o quanto vamos aguentar.

Conforto é resistir, é ter uma casa no meio do nada. É ter um lugar aonde voltar.

 

Escritora sonhadora dotada de blue feelings. Quer muitas coisas ao mesmo tempo. Acredita nas palavras mais do que na imagem. Não acredita na divisão das casas de Hogwarts, mas tem certeza de que é 70% Ravenclaw, 20% Hufflepuff e 10% Gryffindor.

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