Seleção de poemas do livro “sussurro: cantos de chuva

banho de chuva

a gente só se permite em alguns dias da semana
(como na sexta e no sábado)
tão de vez
em quando
um cochilo um chocolate um chamego um choque
uma chuva

tão de vez
em
quando

mas pede muito pro universo
e não se move
fica estático aguado e até sem voz

pede trampolim e não pula
pede raiz e escorre
pede tempo e foge

se mexer por si
é escrever um poema pela
primeira vez
é risco
como agora

hoje não é segunda
mas escolhi começar
e te convido a vir comigo
com tudo isso
de novo ainda
te convido a vir comigo

te convido a fazer
por você
como eu estou fazendo
por mim

blues em E

ão me arrisco a apostar num narrar em pantomina
ainda que palavras mesmo ininventadas
não me sirvam no dizer ou ilustrar
que de tanto me crivar
o inampliável
(insaciável)
coube inteiro
em minha sina

digo
não digo
tento dizer
que este sonido
compasso latejado
é febre que me arde
em escala pentatônica
e sussurra cá no ouvido:
o inferno tem um quê
de vivo
deste mundo
de tua coisa
e de infinito

aquilo a que se aspira
como o fogo à combustão
tem mais força e é mais sincero
do que o eco
deste verso bruto
t u r b o
t u r b o
t u r b o
e pousou na tua mão

é maior que o mundo inteiro
e me toma
de súbito assalto
mais que…
tudo
culpa do ópio
teu
sentimento meu
(paixão?)

Carolina Quintella (Rio de Janeiro, 1996) e Eduarda Vaz (Volta Redonda, 1997) escrevem juntas sussurro: cantos de chuva, que chega em julho pela Editora Urutau. Esses poemas guardam-se no livro, que é fruto de ressonância de vozes. Ambas graduaram-se em Letras: Português / Espanhol pela UFRJ, têm textos publicados em revistas como Lavoura,
mallamargens, Zzzumbido, Gueto, Odara. sussurro: cantos de chuva é o livro de estreia de Carolina e o segundo de Eduarda.

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