Ainda me lembro da nossa primeira viagem para Aracaju. Foi de ônibus, em janeiro de 2009. Íamos completar quatro meses de namoro. Estávamos animados, o plano era passar o mês na casa do meu irmão, curtir a praia, verão no nordeste, tudo lindo! Lá fomos nós. A viagem durou 36 horas. Trinta e seis horas de São Paulo a Aracaju com direito a muito calor, sem ar condicionado, troca de ônibus porque o vidro quebrou, sono, corpo doendo, tédio e o pacote completo de cansaço. Chegamos numa manhã de domingo. Costumamos dizer que aquela viagem foi a prova que a gente dá conta de enfrentar o que for, porque foi um teste intenso. Tínhamos 19 anos, nenhum emprego, muitas vontades.
Meu parceiro e eu estamos juntos há quase dez anos. Casamos cedo, aos 22. Mas ao contrário do que possa parecer, não tem arrependimento na decisão. Era a escolha que melhor representava nós dois naquela época.
É de se esperar, pelo tempo, que já tenhamos passado por muita coisa: a euforia dos mil planos e metas, no começo. Viagens, sanduíches divididos, cinema, passeios ao nosso próprio modo, algumas loucuras, brigas, silêncio compartilhado nas noites comuns, ir junto pra faculdade, almoçar juntos no dia em que caía o vale alimentação, shows, aperto de grana, preparação do casamento, a lua de mel, infinitas mensagens trocadas, luto, gravidez, parto, nosso apê. Criar uma criança. Eu sei, parece muito, e é mesmo. Muitos anos de convivência intensa, de crescermos juntos, de sentir que tínhamos muita sorte de ter um ao outro naquela história bonita do que der e vier.
Aí veio a separação.
Todo mundo diz que a vida muda quando completamos 28 anos, não sei se foi isso. Mas o nosso aniversário coincidiu com o fato de que estávamos nos reinventando. Nove anos sendo um casal e a crise passava justamente pela dúvida de quem eram essas duas pessoas, sozinhas, enquanto indivíduos únicos e singulares que sempre foram, mas que tinham esquecido de continuar sendo.
Eu comecei um processo intenso de escavar a mulher que eu sabia que existia em algum lugar dentro de mim – e fazer isso três anos após me tornar mãe intensificava ainda mais as minhas buscas. Eu precisava fazer isso com as minhas próprias mãos. Saindo do tempo materno em que eu fazia tudo com uma bebê a tiracolo, era natural que eu ansiasse por um pouco de solitude. Ele também estava entrando em seus próprios processos pessoais. E a gente, nós dois, fomos ficando para daqui a pouco. Mais tarde. Amanhã. Ficou claro que precisávamos viver esse momento num outro formato, antes que alguém, ou mais de um alguém, pudesse se machucar de uma forma mais séria.
Se foi fácil? De jeito nenhum! Mas a nossa relação sempre foi muito transparente, com muito diálogo sobre todos os assuntos, então chegamos juntos nesse consenso, de que era melhor tomarmos caminhos diferentes, e assim foi. No tempo em que ficamos separados, ainda nos víamos muito, mantivemos uma relação amigável, digamos assim; até porque com uma criança na equação as coisas precisam ser ainda mais cuidadosas.
Mas aí foi acontecendo uma coisa engraçada. A gente voltou a se dar bem. As discussões tão frequentes cessaram ao mesmo tempo em que soubemos que estávamos em outro formato. Entre um silêncio e outro, baixamos a guarda. E isso abriu um espaço que foi preenchido – primeiro – pelos interesses de cada um, claro, mas também por uma calma, A nossa troca passou a se dar de um outro lugar (dentro) e isso foi, sem que a gente percebesse, limpando o terreno de todos os excessos que tinham ficado entre nós. E com o lugar limpo, é claro que a vista geral do cenário também mudou.
Nos reencontramos, afetivamente falando, no carnaval desse ano e desde então estamos construindo uma nova forma de estarmos juntos. Ainda tem uma essência que nos nos ligava desde o começo, sim. Mas muita coisa mudou. Temos muita consciência que estamos lidando com algo novo agora, e não uma continuação do que não estava dando certo. Isso demanda presença, cuidado, persistência, vontade – todos os dias. E assim estamos indo. Tem quem olhe e fale que é sorte esse nosso encontro, por conta da nossa parceria. Esse é o momento em que eu digo: a nossa sorte fomos nós que construímos. Não veio nada pronto, nem estamos “prontos”, no sentido de fixos e engessados em algum padrão. Construção é mão na massa. E a gente gosta que seja assim mesmo.
No fim, me lembro daquela nossa primeira longa viagem juntos. Muita animação, muita vontade de praia e sol, mas com alguns perrengues para lidar no meio do caminho, incluindo horas de desconforto e imprevistos. E mesmo assim percebendo que entre uma irritação e outra, as vezes é melhor cultivar o silêncio, respeitar o tempo e o espaço do outro. Deixar que se chegue o domingo, o carnaval ou a calma. E ir construindo memórias e aprendizados para as próximas viagens.






