Quase cinco minutos procurando o detergente. Nunca pensei que ao mudar de casa, cidade e estado eu teria que reaprender coisas tão ordinárias como onde fica o corredor dos produtos de limpeza e em qual prateleira é guardado o que serve para lavar louças. Ingenuamente pensava que ao chegar até o mercado sem GPS ou pedido de ajuda tudo estaria resolvido, mas não foi bem assim.

Nos primeiros dias, as distâncias não faziam sentido, nem as curvas ou as ruas e estava tudo certo. Eu sabia que, aos poucos, o nó de referências fora de ordem na minha cabeça começaria a se desmanchar. Que, aos poucos, descobriria meus caminhos favoritos para chegar até a padaria, a farmácia e o ponto de ônibus. De certa forma, me preparei para isso antes de percorrer os milhares de quilômetros até aqui, só que as pequenas coisas me pegaram desprevenida, tão banais que não imaginei como também teria que aprendê-las novamente.

Como usar o chuveiro foi mais uma delas. A temperatura, a pressão da água e até a forma como funcionavam eram diferentes, enquanto estava acostumada com o elétrico este era a gás. Foram dias e dias tentando encontrar um balanço agradável entre as torneiras de água fria e quente sem sucesso.  

Contudo, o que não esperava mesmo foi como parte de mim ansiava pelo mar e achava que caminhando em qualquer direção logo encontraria o familiar cheiro de maresia ou barulho das ondas. Outra parte sabia que isto havia ficado para trás junto com o céu, porque esse, juro pra você, é diferente. Meu novo céu é muito mais propenso a súbitas alterações de humor do que o anterior e sempre decorado com nuvens de formas estranhas. Antes, quase sempre havia uma imensidão azul, a qual, ao encontrar-se com o mar, desenhava um limite para o mundo e te desafiava a imaginar o que existia além. Agora, os prédios ocultam o fim e o que resta é buscar, entre uma nuvem e outra, respostas para o que se passa aqui embaixo.



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