Lembro-me quando o brilhante roteirista Dan Harmon apresentou a sua estrutura narrativa de oito etapas. A primeira é o começo da história, com o personagem em seu Mundo Comum, apelidado de “os braços da mãe”, embalado pelo conforto de sua vidinha normativa. O ponto seguinte é a chacoalhada necessária para a história andar, o desafio inicial de suas crenças e de sua tranquilidade, ou “o empurrão do pai”.
Os braços da mãe são uma delícia. Tenros, quentinhos, macios como uma ilha de travesseiros no sofá e os pés ensacados nas meias em uma tarde de domingo. Mas se quiser que a sua vida passe para a segunda etapa, é no empurrão do pai que reside sua chance.
A vida – tal qual uma digna narrativa – só começa a engrenar quando o pai dá o empurrão e nos tira da zona de conforto. “Conforto” vem do latim cumfortare, significa “aliviar dor ou fadiga”, ligado ao conceito de consolo ou apoio. Ninguém encontra alívio de suas desgraças sendo lançado no confronto. Mas pare e reflita sobre a posição macia em que nos encontramos. O que a zona de conforto nos proporcionou até o momento? Segurança? Talvez. Estabilidade? Quem sabe! O abraço quentinho da mamãe quando o mundo parecer denso e cruel?
Eis o problema da zona de conforto – os “braços da mãe” nos prendem na mesma situação cômoda e favorável, que evoluem para as rotinas comuns, ciclos de repetição, vícios enraizados.
O abraço quentinho soa um tanto quanto inadequado agora, não acha?
Avance no raciocínio e imagine que a primeira etapa da história de sua vida estanque para todo o sempre! Os mesmos travesseiros no sofá e as mesmas meias nos pés aos domingos. Onde estão as novas experiências, as viagens fabulosas, as oportunidades de emprego, as pessoas excitantes que vagam por aí? Agora se imagine preso nos letárgicos braços maternos sem poder sair, enquanto a vida passa?
Esse é o conselho mais cruel que lerá por hoje. Aceite de bom grado a bronca do pai e encare seus medos, sua inércia, seu “deixa pra amanhã”.
Invista no próprio talento, estude bastante, divulgue seu trabalho.
Estique as pernas, corra na praia.
Converse com pessoas.
Aprenda algo novo.
Planeje sair de férias.
Até pedir uma pizza pelo aplicativo requer uma ação.






