Já te dei girassóis, palavras tatuadas na pele da intensidade, nossa imagem e semelhança em miniatura, meus griphos, e hoje – por seu livre e espontâneo desejo – te dou um aspirador de pó.

Esse vermelho que inala ávido o rapé impregnado em cada canto da casa o dia todo, todo o dia, é correlato ao vermelho denso e brilhante que coagula por cada parte do nosso corpo, cada pulso de um impulso insano e misterioso que entorpece nosso existir. A relação à dois no quebra-cabeça da rotina é aspirar aromas e partículas nem sempre agradáveis, mas sempre inspiradores.

A dor de cada absorção faz parte da mistura amniótica de amar. A gente aspira hoje, suspira amanhã, e no final das contas, nunca deixa de inspirar um ao outro. Seja na doce e egoísta delícia de ser o que se é, ou no contagiante deleite compartilhado de ser o que somos, juntos, nós dois, eu e você, aqui e agora, amanhã e depois…

Escrevi essa minicrônica de amor e primavera, com os versos em melodias do Cazuza chacoalhando da minha cabeça. O segredo que ele nos conta em seu significado mais ipsis litteris é uma conversa inaudível ao lado de um liquidificador. Como liquidificador não me traz boas recordações, prefiro que elas permaneçam cheias de pó na sensibilidade auditiva e observadora da livraria.

E quanto ao significado (que nem se faz necessário), escolho a língua que massageia meu ouvido em órbitas dilaceradas, no trajeto cigano do beija-flor com seu codinome a transpirar no meu pé do ouvido.

Um pó,
Um café,
Um saravá,
Você!

 

Texto: Felipe Ferreira // Arte: Hori Leal

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