No final do ano passado comecei a ler Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro. A autora nos apresenta um compilado de diversos artigos seus lançados ao longo dos anos em que foi colunista no blog da CartaCapital, entre 2014 e 2017.
Não tenho outra forma de definir essa obra senão como um soco no estômago do racismo e da misoginia. Sem papas na língua, Djamila apresenta artigos nos quais debate temas fundamentais para a compreensão da situação das mulheres, e de forma mais focada, das mulheres negras na sociedade. A autora escreve sobre os embates relacionados ao racismo, misoginia, violência e exclusão vivenciados pelas mulheres negras no Brasil. Dialogando com diversos públicos, trata do feminismo negro sem diluir as lutas do feminismo como um todo e as lutas contra o racismo, o que é fundamental.
O impacto desse livro sobre mim começou ali mesmo na introdução. Me vi retratada na infância de Djamila, como provavelmente ocorre com maioria das mulheres negras no Brasil, nos impactos do racismo desde a infância, em instituições como a escola, até a vida adulta, em entrevistas de emprego e relações sociais. Djamila conta como ficou incomodada ao receber o prêmio de terceiro lugar no xadrez, e me lembrei imediatamente do incômodo que senti ao receber o prêmio de primeiro lugar em redação do campeonato de redações do município onde eu morava. Dos olhares de surpresa, por seu eu, menina negra, a primeira colocada naquele palco. Lembrei-me também das piadas sobre meu cabelo e a cor da minha pele, que hoje escuto com menos silenciamento do que na minha infância.
E Djamila nos diz: “Ah, eram só adolescentes brincando” E eu me pergunto: quem se compadece da menina negra que terá sua autoestima aviltada, que desde cedo é ridicularizada? Por que se tem compreensão com quem está oprimindo e não com quem está sendo oprimido? A menina negra é que precisa entender que isso é “brincadeira” ou quem faz a “brincadeira” que deve perceber que aquilo é racismo? Até quando utilizarão o humor como desculpa para comentários racistas? Quem olhará pela menina negra que odiará seu cabelo por causa das piadas? Quem lucrará a gente já sabe.
Há também aquela conversa de que devemos rir de nós mesmo, de nossos defeitos. Rir de si mesmo quando se é distraído ou desastrado é uma coisa, mas por que raios eu deveria rir da minha pele ou do meu cabelo, como se fossem um defeito, em vez de partes lindas que me compõem? Por acaso ser negra é um defeito? No olhar do racista, é.”
Me vi, e muitas pessoas que conheço, em cada memória e discurso de Djamila. Das piadas sofridas nas ruas até a “zoeira” dos colegas de classe, escola e trabalho. Me vi na indignação ao ver a mídia e as redes sociais darem mais ênfase a casos internacionais do que aos nossos próprios problemas.
A obra de Djamila Ribeiro abre horizontes para refletirmos nossa sociedade, nossa história e nossa atualidade a partir de temas importantes como o alcance dos debates nas redes sociais, a importância da mídia na divulgação de notícias, o papel do humor na perpetuação de preconceitos e violências sofridos pelas mulheres negras e os limites da discussão sobre racismo e misoginia.
Além disso, sua obra nos apresenta autoras importantíssimas para a compreensão do que é ser mulher, do que é o feminismo, e do que trata o feminismo negro. São apresentados nomes como: Simone de Beauvoir, bell hooks, Maya Angelou, Lélia Gonzalez, Grada Kilomba, Maria Amélia de Almeida Teles, Alice Walker, Toni Morrison, Conceição Evaristo e Mary Wollstonecraft, que fundamentam a visão da autora e embasam suas opiniões sobre a importância do feminismo negro.
Confesso que não conhecia algumas das autoras que Djamila apresenta, mas já sinto vontade de ler cada uma delas e expandir meus conhecimentos e minha compreensão sobre o que é ser mulher, negra e feminista na atualidade.
E hoje Djamila nos faz perguntas fundamentais, como há racismo reverso?, homens brancos podem protagonizar a luta feminista e antirracista?, quem se responsabiliza pelo abandono da mãe?, vidas negras importam ou a comoção é seletiva?, o que a miscigenação tem a ver com a cultura do estupro?, o que é empoderamento feminino?. Ou seja, essa obra possibilita a abordagem de diversos pontos importantíssimos para além da superficialidade. A partir de cada texto surge a reflexão de qual foi e é o papel da mulher negra da sociedade? Seremos sempre resumidas ao fetiche masculino da mulher fogosa, sambista, servil e sensual? Qual é a importância da nossa luta para desconstruir o papel que nos foi designado pela colonização, machismo e racismo da nossa sociedade?
A voz de Djamila nos traz conhecimento crítico sobre o que é ser mulher, e mais que isso, mulher negra, em uma sociedade com heranças de conceitos eurocêntricos, machistas e preconceituosos; sobre o nosso papel enquanto mulheres que buscam a mudança e a desmistificação do nosso papel nessa sociedade.
Enquanto machistas e misóginos destilam seus discursos de ódio sem embasamento crítico algum, Djamila nos leva à reflexão, ao conhecimento e à desmistificação do que é ser mulher, negra, consciente em meio ao caos em que vivemos. Sua visão teórica e crítica levanta um debate fundamental diante da realidade em que vivemos, de conflitos que também mostram a importância do debate, do conhecimento e da conscientização de quem fomos, somos e podemos ser diante do racismo e misoginia institucional e cultural que nos cercam.
É preciso ter coragem para ler esse livro importantíssimo, para feministas ou não, mulheres ou homens, negros ou não, e permitir que cada texto traga a reflexão necessária para a desconstrução do machismo e misoginia latente que enfrentamos a cada dia. Mas uma coisa é certa, me orgulho tenho de ser da mesma geração que Djamila e poder presenciar essa obra. Só posso concordar: “Pensar feminismos negros é pensar projetos democráticos.”

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Sandra de Cássia é formada em Letras pela USP, nascida em São Paulo, amante de literatura, filmes, séries e viagens. Se sente mais viva quando escreve.






