Alice Sant’Anna é expoente de uma nova geração de poetas que têm nascido e florescido no Brasil contemporâneo. Com apenas 28 anos, está no seu terceiro livro, e já fez parcerias com grandes nomes da nossa literatura, como Armando Freitas Filho. Carioca, lançou neste ano o singular “Pé do Ouvido” (Companhia das Letras, 2016), um ato de ousadia e comemoração da poesia.

O próprio título já nos remete a uma situação de intimidade, de algo falado em voz baixa. O livro é isto mesmo: dividido em duas partes, sem nome, chamadas apenas de “parte 1” e “parte 2”, parece uma longa conversa. Partindo dessa novidade de dois poemas enormes, Alice inventa um novo gênero. Seriam poemas em prosa? Épicos? Narrativas poéticas? Há uma recorrência de cenas, flashbacks; fatos contados com uma dicção lírica, em versos. Em alguns momentos, se aproxima de um fluxo de consciência; em outros, lembra uma sobreposição de memórias. É algo polifônico? Há um narrador único? Ou melhor, um eu-lírico?

O assunto que mais aparece é a própria linguagem. Seja na relação com outras línguas – “a diferença entre solitude / e loneliness qual é?”; “o nome dela em hebraico / quer dizer joia de ouro / o nome dele em alemão quer dizer / quem guarda as chaves da prisão / aquele que controla / quem entra quem / sai quem fica” –, ou no próprio português – “ela ensina uma palavra / escreve no papel em letras garrafais / só existe em português / ele pega o papel / sem ler coloca na boca e mastiga / assim não esqueço mais”. Isso já é adiantado em uma das belas epígrafes, de Jack Gilbert: “the heart is a foreign country whose language none of us is good at”.

Por ser tradutora, sempre recorre aos limites e peculiaridades da poesia japonesa: “no japão há quatrocentos e sessenta e cinco / cores catalogadas com nomes / que as pessoas usam no dia a dia / cor de flor pálida / cor de girassol / cor de prata / (…) a cor dessa árvore: vermelho fogo? / escarlate, vermelho desesperado?”. A relação com a palavra, em todas as línguas, também se dá como uma preocupação constante: “as palavras não têm o som das coisas / isso se percebe quando se aprende / algo numa língua estrangeira”.

O tom do livro é bastante contemporâneo, expondo as impossibilidades da vida do século XXI: “não dá pra fotografar a lua / com a câmera do celular”. Consciente da sua contemporaneidade, Alice se insere na tradição moderna que não utiliza letras maiúsculas, sendo também econômica na pontuação. Além disso, cria um certo ritmo ao trazer os mesmos temas, por meio de perguntas ao seu interlocutor: “a cor dessa árvore: vermelho / esfuziante? exuberante?”

Quanto ao próprio processo de criação literária, esbarramos novamente na metalinguagem. Para contrastar a brevidade e a extensão, refere-se aos haicais, curtíssimos; colocando-os em contraponto ao seu próprio livro, longo: “a poesia japonesa é sobre a natureza / sobre a impermanência das coisas / a beleza das coisas que não duram”. O livro é tido, explicitamente, como uma conversa informal, faladora mesmo: “você aparece bastante / tudo o que disser pode entrar / é um poema tagarela”. Aqui, não há o impacto súbito do fim do poema, quando as palavras solitárias pendem no resto da folha em branco; então, todos os versos procuram se impor.

A experiência de leitura de “Pé do Ouvido” pode ser dita pelas suas próprias palavras, as primeiras da segunda parte: “do outro lado da porta mora um leão / é preciso aprender / a abrir a porta do quarto / com toda a delicadeza para que o leão / não acorde”. É necessário abri-lo com toda a delicadeza, lê-lo em voz baixa, para que os nossos leões não acordem. Ou acordem, e se façam ouvidos.

A terceira obra de Alice Sant’Anna é um “caminho onde duas pessoas”, o eu-lírico e o leitor, podem conversar, baixinho, delicados. Esse livro é um pedido para que reservemos alguns minutos, horas, dias, para a poesia; nesses dias tão contemporâneos. Sejamos devagares nos tempos instantâneos. Que gritemos, sim; mas que lembremos sempre de falar, também, ao pé do ouvido.

Texto: Bruna Kalil

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
https://brunakalilothero.weebly.com/

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