Chico César foi muito pontual ao cantar uma vez: “Deus me proteja de mim / e da maldade de gente boa, / da bondade da pessoa ruim”.
Esse pensamento reflete as nuances entre os comportamentos de uma pessoa bondosa e outra que é pura maldade. A ficção contemporânea nos alerta há tempos sobre um conceito muito mais antigo: ninguém é totalmente bom, ninguém é totalmente mau.
Para os amantes de RPG (“Role Playing Game”, um estilo de jogo em que as pessoas interpretam seus personagens), existe o conceito de Tendência no momento da criação de personagem. Em linhas gerais, significa a caracterização moral e ética que guiará as atitudes dos jogadores, de monstros e sociedades apresentados na história.
A Tendência é como uma “bússola” para nortear em como tal figura do jogo deve agir para que não fuja de sua interpretação, algo valorizado no RPG, incorporando uma ampla gama de motivações e traços de personalidade.

No jogo Dungeons & Dragons (D&D), existem três grupos de Tendências que são fundamentais para a criação de personagem: os que definem a moral, através de BOM e MAL; o grupo da ética, por LEAL e CAÓTICO; e por fim, o NEUTRO, um meio-termo.
Imagine que eles possam convergir. Desta forma, podem surgir coisas impressionantes, como um grupo de personagens instáveis e que garantem muitas surpresas na narrativa: o CAÓTICO-BOM, o CAÓTICO-MAU e o CAÓTICO-NEUTRO!
Caos total
O caos é o elemento mais fascinante na história real e ficcional. Os gregos consideravam o Caos o primeiro deus primordial a aparecer no universo. Nietzsche resume o caráter geral do mundo como caos. É até mesmo nome de teoria matemática, presente em tudo o que nos cerca, inspirando filmes como “Efeito Borboleta” (2004).
Por definição, a Tendência de um personagem caótico será de alguém que vai prezar sua liberdade, passando por cima de convenções sociais e regras para alcançar seus objetivos – até mesmo as suas próprias regras, se for preciso.
O caótico com a moral determinada por Bom será o típico anti-herói, rebelde e revolucionário. Ele terá o objetivo de fazer o bem, mesmo que para isso tenha de quebrar umas cabeças, explodir uns bancos ou roubar o pirulito de uma criança. Fazendo o bem, que mal tem?
Acertou quem pensou na heroína moderna Lisbeth Salander, da série de livros Millenium (2005-2017), furiosa e de ética elástica, mas disposta a ajudar pessoas que sofrem de abuso. Outro exemplo é o Número 05 de “The Umbrella Academy” (2007), capaz de tudo para evitar o apocalipse.


O caótico-neutro já terá uma inclinação para a isenção. Individualista que segue suas emoções, e pode causar tanto o bem quanto o mau, se isso for de encontro a seus interesses. Pense no DJ de “Star Wars: The Last Jedi” (2017) ou qualquer outro mercenário cuja única motivação é o benefício, por exemplo.
Segundo o próprio intérprete, Benício Del Toro, DJ é “como uma faca: se você o pega pela lâmina, ele vai te cortar, mas se pega pelo lado certo, pode ser muito útil”. É um resumo perfeito de como agirá o caótico-neutro.

Por fim, o caótico-mau é a própria representação do terror, alguém que provoca maldades sem motivação aparente. Psicopata e destruidor, essa Tendência é mais voltada para personagens que não tem nada a perder. Impossível não se lembrar do imprevisível Coringa, arquivilão do Batman, em todas as suas representações. Outro exemplo é a Amy Dunne de “Garota Exemplar” (2012), onde nunca sabemos suas reais intenções e discursos.


Ficou interessado? Comece a analisar esses comportamentos na criação das suas histórias ou, então, percebê-los em livros, filmes ou séries. Desvendar seu personagem preferido em camadas será um ótimo exercício para entender que há muito mais do que apenas dois lados sobre o bem e o mal.







