Era meados de 2016 quando um dia entrei no Facebook e me deparei com uma enxurrada de posts sobre uma formatura. Várias das pessoas que tenho adicionadas estavam na tal formatura e aquele parecia ser um dos dias mais felizes de suas vidas. Pela rápida olhada que dei, a maioria tinha feito textos discorrendo sobre como aquele momento era importante, e o quanto elas ralaram para estar ali. Não fiquei por muito tempo. Logo fechei a rede social e uma sensação muito, muito ruim tomou conta de mim.

Aquela era para ser a minha formatura. Eu deveria estar ali, segurando o canudo junto com aquelas pessoas, compartilhando daquela vitória que deveria ser, também, minha. Comecei então a lembrar do caminho que tinha me levado ali e as razões pelas quais eu não estava me formando junto com a minha turma original. Desde a mudança de estado, até as experiências profissionais. Nesse caminho, o que não faltaram foram pessoas me desencorajando a voltar para a faculdade.

Mas toda essa demora para minha formação superior não era a toa. Eu tinha meus motivos. Ou pelo menos era isso que eu falava pra mim mesma enquanto uma outra vozinha na minha cabeça afirmava que aquilo era só um monte de desculpas, e que eu era sim, no fim das contas, uma fracassada.

Nesse meio tempo, fui de “quer saber, eu não vou fazer nada mesmo com esse diploma, então pra que me preocupar?” à “caramba, eu tenho que me formar logo antes que o Brasil se torne algo que eu desconheça completamente”. Alerta de spoiler: eu não me formei ainda. A diferença é que hoje encaro a situação por um viés diferente.

O que vem de fora ou o que vem de dentro?

Segundo a psicóloga Karine Muller de Avila, para lidar com a vitória alheia é preciso primeiro pensar nos motivos que te fazem sentir mal e se questionar se essa é uma cobrança interna ou externa. Além disso, é necessário refletir sobre nossos limites, aportes e tempo próprio. “Como tratamos esses sentimentos vai depender também da criação e meio de cada um. Lembrando que tudo tem seu tempo certo e às vezes as coisas que almejamos acontecem, mas não necessariamente na ordem que queremos”, diz Karine.

A psicóloga também afirma que é preciso romper com nossa percepção sobre fracasso. “Não vejo como fracassado alguém que está em busca de suas conquistas, por exemplo.” Todos temos nossa individualidade, e ela determina nossas prioridades. “Vejo uma mudança muito forte na cultura contemporânea. Existem pesquisas que comprovam que a prioridade hoje é muito mais a carreira, em vez de ter filhos”, conta Karine.

E onde as redes sociais, tão presentes em nossa rotina, se encaixam nisso? Para alguns, basta procurar o Instagram mais próximo para se sentir péssimo em relação a suas próprias vitórias. Não é à toa que diversas pessoas costumam fazer regularmente um detox de redes sociais. Porque, se você está em um momento ruim, as chances de piorar só aumentam quando você acessa sua linha do tempo. 

Karine opina que a tendência das pessoas nas mídias é de, muitas vezes, mostrar somente a parte boa de suas vidas. As viagens, festas e sorrisos. “Na verdade, todos temos ambos os momentos: os bons e os ruins.” Então, em caso de dúvida, deixe o celular um pouco de lado e lembre que é extremamente raro alguém postar algo que não favoreça sua imagem externa.

“Must be funny in the rich man’s world”

Uma das razões mais impeditivas para qualquer pessoa que conheço hoje (eu inclusa) alcançar alguns marcos da vida adulta é o fator financeiro. Fulano gostaria de se casar, ter um filho, mas se não sobra grana nem pra festa de casamento, quem dirá para criar outro ser humaninho. Fulana queria viajar, fazer um curso fora do país, mas do jeito que a economia está, nem pensar.

Muito se fala em geração canguru, mas será que, se pudessem escolher, esses jovens adultos realmente estariam ainda vivendo sob o mesmo teto de seus pais? Será que eles se sentem incapazes de se sustentar ou apenas temem uma economia instável e as incertezas sobre seus direitos?

Quando paramos para pensar que nossos pais, quando tinham a nossa idade, já possuíam uma vida estabelecida, com alguns bens materiais adquiridos, nos sentimos ainda piores. Mas, hoje sair do aluguel pode ser considerado um luxo. Combinado a isso, estão as empresas com exigências altíssimas para os currículos. E como satisfazer essas exigências em um país que cada vez mais subjuga a educação superior, cortando verbas e exterminando bolsas de mestrado e doutorado, e que é conhecido por ter uma educação privada de custos altíssimos? Esse é o campo de batalha que o jovem adulto tem que cruzar antes de sequer imaginar ter a sua independência.

“Você ainda não chegou lá, mas olha o quanto cresceu”

Não ter tudo o que você quer hoje, não faz de você uma pessoa menos extraordinária. Mas, conseguir chegar a essa conclusão e aceitá-la como verdade não acontece do dia para a noite. É preciso muita reflexão, autoconhecimento e apoio de pessoas que te lembre que algumas coisas fogem do seu controle. Quando comparamos nossas vitórias às dos outros, ignoramos o caminho. E o seu só pode ser trilhado por você. Lembre de às vezes parar e contemplar o quanto você andou sem nem ao menos perceber.

Elisa Gergull

Ilustradora, resenhista, escritora | [email protected] | Website

Apaixonada por histórias em seus mais variados tipos. Tem tendência a exagerar e a ser dramática. Geralmente está obcecada por alguma coisa, o que pode ser o amor de uma vida inteira ou uma paixão passageira. Estranhamente é uma mistura de Lufa-lufa com uma pontinha de Sonserina. Vai entender.

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