Na minha família, há uma superstição, sem origem certa, de que crianças nascidas durante a primeira semana de agosto terão muitas dificuldades para vingar. De fato, isso é recorrente nos nascimentos, e um pouco assustador para as gestantes. Presságios de sorte, futuros e anunciações são comuns às famílias para explicar padrões reproduzidos de modo geracional, mas cuja origem é difícil de compreender.

Com a psicologia moderna, muitas das “maldições” são interpretadas como a reiteração por membros da mesma família de comportamentos danosos, seja consciente ou inconscientemente. No entanto, alguns mistérios ainda pairam, e a literatura oferece muitos exemplos.

O mais importante deles, a meu ver, está no livro de Assis Brasil, Beira Rio, Beira Vida, em que a prostituta Luiza, filha de Cremilda, também prostituta (que conseguiu prosperar e gerir um armazém), conta sobre a maldição familiar que segue sua família: todas serão prostitutas, vendo suas filhas seguindo o mesmo destino que agrega também infelicidade na vida afetiva, com a quebra da maldição significando também o fim da estirpe. Dividida entre o alívio por sua filha Mundoca não ser uma mulher desejável ou atraente para a beleza padrão, dando fim assim à praga familiar, ela também tem momentos de intenso desprezo pela filha, que não se encaixa de maneira alguma no mundo de Luiza e que representa a decaída final do período em que esta desfrutou de algum conforto financeiro antes da derrocada financeira da família.

As maldições são comuns em lendas brasileiras no geral, sendo as mais famosas a da mula-sem-cabeça – uma mulher que vive um romance com um padre se transforma no animal assustador que, vagando pela noite com a cabeça flamejante escoiceia homens; a cachorra-da-palmeira, que ganha uma forma bizarra de um pequeno animal semelhante a um cão mas deformado nas ancas, antes uma moça que debochou do Padre Cícero, e o lobisomem, o sétimo filho homem de uma família, que em outras variações é um vampiro, e não um homem-lobo.

Ilustração de Walmor Corrêa da Cachorra-da-palmeira

Assis Brasil, para compor o quadro de suas mulheres amaldiçoadas, mescla elementos de duas lendas bem populares no folclore piauiense: a mais famosa de nosso estado, Cabeça-de-cuia, fala sobre um filho condenado após assassinar a mãe com um osso de quarto de boi, nos últimos suspiros desta, a vagar sem paz até matar sete Marias virgens, preço para que sua alma descanse no fundo do Rio Parnaíba. Há inclusive um jogo chamado The Last Night Mary, disponível no Steam, que tem gráficos lindos e passa toda a atmosfera de pesadelo da maldição. Bem conhecida também e com um fundo de verdade é a lenda da Porca do Dente de Ouro, que fala de uma moça que após desrespeitar a mãe é amaldiçoada por ela a virar um animal enorme e grotesco, mantendo como marca da humanidade de outrora um dente de ouro. No começo da cidade, em que havia muitas quintas fora do centro, era comum animais vagarem soltos, inclusive porcos de grande porte, cuja a mordedura é uma das mais dolorosas existentes. Baseadas nesses ataques, a lenda tomou forma.

Menu Inicial do Jogo The Last Night Mary

Ancorada no folclore piauiense, em que as maldições estão presentes na maior parte das lendas, Beira Rio, Beira Vida traz o elemento de realismo fantástico da América Latina de narrar sagas familiares baseadas em sortes e estirpes. Como não evocar a maldição que envolve todos os Buendía? O primeiro, amarrado a uma árvore, o último, comido por formigas. Isabel Allende, em A Casa dos Espíritos, também fala sobre isso, ao promover o contato da personagem com o sobrenatural e assim, saber sobre os destinos e sua família.

A Casa dos Amores Impossíveis, publicado no Brasil pela editora Prumo, e apontado por muitos como uma mistura entre a Casa dos Espíritos e Cem Anos de Solidão, fala em mulheres sucessivamente amaldiçoadas com amores impossíveis, difíceis e contrariados. Em comum, todas têm espíritos destacados das realidades em que vivem, e a quebra da maldição, neste caso, está quando a última das Lagunas dá à luz a um menino, que é feliz no amor: o final fica aberto, pois não se sabe se, casando e tendo uma filha, a maldição seguirá seu curso até o fim da linhagem.

O último Buendía nascido com rabo de porco e que será comido pelas formigas, confirmando a profecia de Ursula do fim da estirpe

Mais conhecido por ter sido transformado em filme pela Netflix, o livro o Guardião Invisível faz parte da trilogia de Baztán (vale do principal rio da região basca da Espanha), que teve apenas o primeiro volume publicado no Brasil pela Editora Record. Com o sucesso do filme, espero que os demais livros sejam traduzidos, porque a história mistura maldição familiar e misticismo com romance policial. A marca da maldição é uma noz encantada, deixada para que quem a recebe tenha uma morte sofrida e violenta. Segue a maldição quem recebe a semente (Amaia, a personagem principal, encontra uma noz em cada cadáver de moças que descobre em sua pequena cidade natal, fato que a deixa intrigada até ela encontrar mais uma, desta vez destinada a ela.

O enredo da Trilogia de Baztán remete ao recente filme Hereditário, que fala sobre os padrões de comportamentos danosos mencionados no começo deste texto, mas com notas de sobrenatural, visto que é um filme de terror, um dos mais apavorantes que assisti. Para não dar spoilers, pois o fundamental em filmes deste gênero é a apreensão do espectador, digo apenas que o não saber é tão bem explorado que transforma o filme em dois e dá azo a muitas interpretações.

Amaia Salazar criança, em O Guardião Invisível

Minha tendência forte em ser supersticiosa respeita bastante o incompreensível para a inteligibilidade. Por isso, simpatias de sorte e amuletos (gostando desta interpretação ou não, crucifixos, terços e rosários, muito comuns nas casas brasileiras, são amuletos) estão sempre comigo.

Vai saber se vejo um porco imenso no meio da rua ou um homem de cabeça desproporcional, né.

27 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de "realidade": estudo feminismo, criminologia e sou especialista em direitos humanos.

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