Quando eu comecei a doar para a ACNUR, no final do ano passado, eu não sabia muito além do “óbvio” sobre os refugiados. Mas, a cada newsletter que a Agência me envia, eu posso perceber o quanto o meu dinheiro, apesar de pouco, pode fazer a diferença. Eu ajudo mulheres, crianças, famílias inteiras a conseguirem água potável, ou medicamentos, ou segurança.

A gente sempre acredita que a paz é algo que tá ali o tempo inteiro, até que percebe que muito pouco pode tirá-la de nós. Todos nós acabamos deixando de sentir paz por muitos motivos, alguns deles muito privilegiados. Infelizmente, a gente ainda tem essa dificuldade em aceitar o que é privilégio.

O privilégio de Malala começou quando ela não desistiu de ir à escola que seu pai construiu para meninas em sua cidade. Acontece que o privilégio está em coisas muito pequenas, né? Não precisar andar para ir à escola, por exemplo; ou ter pais que entendem a importância de uma educação.

Quando se é mulher, é fácil perceber, direitos acabam se tornando privilégios de poucas. Nas regiões de onde muitos refugiados fugiram, as mulheres jovens são bem conscientes de que parar de estudar abre um caminho sem volta de violência e falta de liberdade. Muitos homens, infelizmente, ainda são criados para as ver como propriedades, o que os faz proibi-las de estudar, ter um trabalho e uma vida isolada do sistema patriarcal.

Em “Longe de casa” somos apresentados a muitas jovens mulheres. A primeira delas é a própria Malala, que conta sua trajetória de vida: como era uma criança feliz e se tornou alguém estrangeira num país desconhecido, onde não sabia como se enturmar. A autora é bastante direta e sucinta, o que faz a leitura ser bastante rápida, mas ainda assim saborosa e real. Ela não exagera em dar muitos detalhes, mas é certeira em fazer um retrospecto, especialmente, de seus sentimentos de medo, coragem e resiliência.

A parte 2 do livro se incube de apresentar outras mulheres que Malala conheceu e que têm histórias inspiradoras. Quase todas têm ligação com a educação, o que pode-se dizer que é o tema central da obra. Com essas histórias, Malala dá vida a refugiadas para além de sua obviedade.

A palavra “empoderamento” já caiu num clichê há algum tempo, mas acredito que é bem empregada neste livro. Malala dá voz a pessoas que precisam ser vistas e ouvidas. E elas estão para bem além de seus traumas e suas terras perdidas.

É difícil analisar as jornadas corajosas de todas as personagens trazidas no livro, porque carregam angústia e muita tristeza. Muitos de nós não têm ideia do que é perder a terra em que se habita, mas, ainda assim, de acordo com a ACNUR, “mais de 44 mil pessoas por dia são forçadas a deixar suas casas, e 68,5 milhões estão deslocadas no mundo inteiro” (p. 215). São mais de 25 milhões de refugiados, sendo que mais da metade deles vem exclusivamente do Sudão do Sul, Afeganistão e Síria.

A sensação que fica ao se terminar a leitura é que nós, que somos privilegiados, ainda fazemos muito pouco para mudar as vidas das outras pessoas. É claro que ninguém é obrigado a ajudar outrem, mas acredito que ninguém tenha que perder direitos básicos para que eu – ou você, sua mãe, sei lá quem – possa viver bem, sem medo e com esperança.

Escritora sonhadora dotada de blue feelings. Quer muitas coisas ao mesmo tempo. Acredita nas palavras mais do que na imagem. Não acredita na divisão das casas de Hogwarts, mas tem certeza de que é 70% Ravenclaw, 20% Hufflepuff e 10% Gryffindor.

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