Texto: Bárbara Reis
Essa definitivamente não é a primeira lista do gênero que você já viu. Principalmente se você está por aqui, na Pólen, você sabe que as ideias historicamente recebidas por nossa sociedade como polêmicas têm um impacto que se arrasta por décadas e décadas e que muito provavelmente nunca se dissipa por completo. É olhando para como nossa sociedade processou alguns trabalhos marcantes da literatura que podemos entender onde estão seus pontos de maior vulnerabilidade e, a partir disso, nos perguntar porquê.
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Seguindo uma ordem cronológica, começamos lembrando de 120 dias de sodoma, escrito pelo francês Marquis de Sade em 1785. Conhecido por “dar origem” ao sadomasoquismo, o livro acompanha quatro homens ricaços e “libertinos” que decidem se isolar num castelo no meio de uma floresta com mais quarenta e seis vítimas, entre elas as filhas dos próprios homens e outras crianças que têm entre doze e quinze anos, para explorar “os prazeres da orgia”. Cinco prostitutas também ficam ali como cúmplices, e depois narram a história. O trabalho é tão controverso que sua publicação só ocorreu de fato no início do século XX.
É um livro chocante desde sua concepção: ele foi escrito por Sade durante os 45 dias que passou preso na Bastilha. E só de olhar para o enredo e a maneira com que o autor escolhe descrever as personagens, fica claro que ele foi escrito com o intuito de chocar. Esse exemplo serve para nos lembrar do tabu cercando expressões sexuais fora da norma – e, nesse caso, criminosas – e de como frequentemente só se oferecem duas opções de pensamento (igualmente erradas) diante delas: aquela de permanecer em silêncio completo e fingir que cenários como aquele não existem e o de relativizar abusos em nome de uma maior “liberdade sexual”, completamente ignorando as estruturas de poder e danos reais decorrentes da “liberdade” de alguns.

Partindo para outro que ao menos subverte as tais estruturas de poder de alguma forma, temos Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert. Considerado o pioneiro daquela escola literária que basicamente veio mesmo pra tacar fogo em tudo – o Realismo – o livro narra a história extremamente comum de Emma Bovary, recém casada com Charles, um cara que, como marido, é um ótimo médico. Ela foi criada sonhando com o amor romântico, e seu casamento não reflete nem um pingo desse idealismo. E assim, acompanhamos seu caminho rumo ao adultério; registrado pela primeira vez na literatura como um ato da esposa.
O resultado vocês já sabem: após a história ser publicada em capítulos na revista La Revue de Paris no final de 1856, Flaubert foi levado a julgamento devido às obscenidades presentes em sua obra. Ele, no entanto, saiu ganhando: o caso acabou atraindo tanta atenção que a história de Bovary tornou-se famosa e quando foi publicada em um único volume, em abril do ano seguinte, foi um best-seller instantâneo. Primo Basílio, romance de Eça de Queirós publicado em 1878, é fortemente inspirado na obra chocante do francês.

A sexualidade feminina e os abusos perpetrados contra ela são uma constante fonte de polêmica: a primeira, porque não deveria existir, e a segunda, porque não deveria ser comentada. É nesse segundo caso que se encaixa Lolita, de Vladimir Nabokov, publicado em 1955. Apesar de seu protagonista, Humbert Humbert, ser devidamente caracterizado como alguém que tem problemas psicológicos, ele também toma o lugar de narrador da história e como consequência, vemos sua relação com Dolores Haze do ponto de vista deturpado de alguém que veementemente acredita no poder de sedução irresistível de uma garota de doze anos. E a história foi eternizada na cultura pop completamente imersa na lógica doentia de Humbert, sendo tomada como o exemplo mor da sexualidade precoce e traiçoeira de garotas jovens que “sabem muito bem o que estão fazendo”.
O romance e sua assimilação pelas pessoas é ideal para questionar como a categoria de “loucura”, de um ponto de vista patológico, é maleável: uma vez a crença na culpabilidade da vítima é compartilhada por um grupo imenso da sociedade, o desequilíbrio de Humbert é quase sempre minimizado ou ao menos relativizado. Aquilo que era pra ser um retrato crítico da perversão do narrador-personagem acabou sendo fonte inesgotável da romantização de relacionamentos desiguais.

A Redoma de Vidro, publicado em 1963, pouco antes do suicídio de sua autora, Sylvia Plath, deriva seu fator de choque justamente por tratar de uma doença que, apesar de não resultar em abusos de outros, ainda é tratada como loucura: a depressão. O livro é um retrato semi-biográfico da trajetória da protagonista, Esther Greenwood, por um mundo de pressões acadêmicas e patriarcais. Ela descreve fielmente tanto os sentimentos mais obscuros decorrentes do distúrbio como um de seus tratamentos mais controversos, a terapia de choque. Até hoje, a linguagem franca utilizada por Plath mantém seu impacto por conseguir ser simultaneamente perturbadora e muito, muito próxima da realidade.

E para acabar essa pequena compilação sem difundir a crença de que só livros “sérios” são capazes de chocar, falemos da trilogia infanto-juvenil As fronteiras do universo (His Dark Materials), publicada entre 1995 e 2000 por Philip Pullman. Apesar de contar com relativo sucesso – principalmente no Reino Unido – desde o lançamento, ela atingiu sucesso ao redor do mundo a partir da adaptação cinematográfica do primeiro livro, A Bússola de Ouro. A trilogia conta a história de Lyra Belacqua, garota de 12 anos que mora numa Oxford de um universo paralelo, onde a alma de cada pessoa tem o formato de um animal (que tem a capacidade de mudar até que, basicamente, a pessoa atinja a puberdade) que caminha ao seu lado. Ela descobre ter a habilidade rara de ler a tal bússola (que, na verdade, se chama Aletiômetro), que consegue responder qualquer pergunta possível.
O enredo é complexo demais para ser explicado em poucas linhas, mas envolve a jornada de sua protagonista por diversas dimensões e conta com um retrato – e aí está a primeira das duas grandes polêmicas da série – nem um pouco amigável da Igreja Católica, que age de forma totalitária no universo de Lyra sob o nome de Magistério. Ao longo da trilogia, o autor vai além em seu retrato negativo de todos os dogmas católicos (de um jeito que não posso comentar sem dar spoilers), e isso lhe rendeu acusações de estar vendendo ateísmo (e em alguns casos, até mesmo satanismo) para crianças. Esse aspecto do livro foi tão controverso que estes elementos foram extremamente minimizados no filme por medo de causar ainda mais tretas.
A segunda polêmica, naturalmente, veio da sexualidade de Lyra: em uma cena do terceiro livro na qual ela dá seu primeiro beijo, as descrições psicológicas feitas da personagem demonstram seu desejo sexual. Ainda que isto seja feito de forma branda e inocente, foi o suficiente para que o trecho fosse censurado e reduzido na edição americana.
Ainda que cada um destes livros tenha temática diferente, a polêmica é a mesma: a questão da proteção do público de literatura “perigosa”. Perigosa para quem? Talvez só para a moral e os bons costumes. É assim que livros acabam sendo banidos, retirados de escolas, questionados por pais, instituições religiosas e o termômetro moral da sociedade ao seu redor. Literatura pode ser desafiadora dos costumes e do status quo e isso assusta quem ganha com ele. É por isso que quebramos o silêncio e celebramos os livros banidos.
Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.



