Texto: Nicole Cardoso

A ansiedade sempre fez parte da minha vida. Eu não conheço outro mundo em que eu não esteja pensando, em um looping eterno, sobre absolutamente qualquer coisa – por mais inútil e/ou pequena que seja. Dessa forma, qualquer área da minha vida é afetada por essa exaustão de pensamentos obsessivos que a ansiedade provoca em mim. Mas nem sempre eu tive consciência disso. Por nunca parar de pensar e tentar encontrar soluções para problemas que, às vezes, nem existiam, sempre me considerei uma pessoa criativa, o que me fez olhar para o mundo das artes de uma forma mais carinhosa.

Quando criança, eu escrevia muito sobre os meus sentimentos. Escrevia cartas, escrevia bilhetes, escrevia nos meus quinhentos diários. Eu não tinha o hábito de ler, mas dizia por aí que seria uma escritora de sucesso, ainda que eu não considerasse um trabalho real – eu criava a minha própria literatura. Ao mesmo tempo, amava desenhar. Eu tentava recriar tudo o que visse pela frente, desde os meus milhares de gibis da Turma da Mônica até diversos animes que eu via na época – minhas maiores referências em questão de estilo. Eu copiava, recopiava, traçava por cima, traçava de olho. Fazia várias e várias vezes até que eu não precisasse mais do desenho de base. Essa foi toda a teoria que eu tive contato sobre “como desenhar” e “como escrever”. Para mim, essas coisas eram apenas uma diversão. Um hobby. Algo que eu fazia porque eu era criativa e inquieta demais. Por não conseguir manter o foco em absolutamente nada por mais de cinco minutos e que, de alguma forma, me ajudavam a esquecer um pouco a voz contínua que existia em minha mente.

Com o tempo, abandonei o desenho, mas continuei insistindo na escrita, até o momento em que eu percebi que precisava pagar contas, cuidar de um filho, me sustentar e lidar com todas as outras obrigações da vida adulta. Absorvi a ideia de que a arte era um hobby e que já não tinha espaço na minha vida. Cheguei ao ponto de até desistir de cursar alguma faculdade, mas, em 2015, ao passar no vestibular para cursar Letras, resolvi dar uma chance à menina inquieta que ainda existia em mim. Encarei a ideia de começar uma faculdade, aos 23 anos, sem qualquer ideia do que fazer depois. Eu tinha tantas expectativas para alcançar a minha própria literatura que, quando percebi, eu não tinha qualquer ligação com a literatura do resto do mundo. Por nunca ter aprendido as teorias, a realidade era um soco na cara. A partir disso, a ansiedade se transformou em ataques de pânico e, quando vi, os sintomas eram tão físicos que eu passava mal se estivesse no meio de muitas pessoas. Sair de casa era um desafio. Foi, então, em um momento de pouca sanidade mental e grande insatisfação com o meio acadêmico que eu descobri a aquarela.

Há um pouco mais de um ano, ganhei um estojo de aquarela e, sem qualquer pretensão, deixei a pintura invadir o lugar da voz contínua na minha mente. O alívio é imediato. Eu começo a pintar e toda a minha preocupação se torna a paleta de cores que eu quero usar. O que não significa que, de alguma forma, não seja um processo trabalhoso e exaustivo. Pensar em cada detalhe da pintura me deixa ansiosa. Lidar com o fato de que a tinta não se importa com o limite que eu quero que ela tenha. Quase sempre, ela escapa do meu controle. Os erros, às vezes, até assumem um outro papel – da ordem do inesperado. Apesar disso, ao pintar, a ansiedade se faz de uma forma diferente. Posso ter mil preocupações ao mesmo tempo, mas, se eu estiver pintando, eu simplesmente não consigo parar. Não consigo interromper o fluxo criativo até que ele encontre o seu fim. O que é ótimo, pois, nesse momento, eu não penso na validação das pessoas, na minha falta de embasamento teórico, no meu amadorismo diante das técnicas. O fluxo artistico me invade de uma forma tão violenta que, quando percebo, eu não sou mais eu. Não sou limite, não sou forma. Sou apenas cor.

Às vezes, fico sem desenhar durante dias. É difícil lutar contra os pensamentos ruins, contra o medo que me paralisa. De repente, começo a questionar o meu lugar. Penso que não deveria estar na faculdade, que eu escrevo mal, que eu não faço o perfil de um estudante de literaturas; penso que eu sou uma fraude, que eu estou roubando o lugar de alguém que pinta infinitamente melhor do que eu. Penso que eu não posso dizer que sou ilustradora, porque eu não sou nada perto das pessoas que estudam muito pra isso. Penso que as pessoas elogiam as minhas criações porque são gentis e não porque gostaram, de fato. Penso que eu não sou capaz e que, uma hora, todos vão descobrir.

Quando me sinto dessa forma, não consigo gostar de nada que eu faça. Qualquer linha no papel se torna um peso absurdo na minha cabeça. Procuro canalizar a energia do fluxo dos meus pensamentos para que se transforme em algo criativo, mas lidar com a intensidade da minha ansiedade é um desafio diário que eu assumi para o resto da minha vida. Mas, apelando para a pieguice de um clichê: cada dia é um novo dia. Um novo dia para pintar, para aprender, para tentar, para se arriscar. Um novo dia para (re)começar e deixar de lado o que já passou. Para entender que cada pessoa tem o seu próprio tempo e que não adianta viver de acordo com o tempo do outro. 

Pintar é, sem dúvidas, uma das minhas maiores formas de controlar a ansiedade. De desacelerar do mundo. Uma espécie de fuga da realidade que desencadeia no encontro da minha essência. Uma coisa que acontece sem necessidade de intervenção divina – não acredito em dom, acredito em aptidão para algo, (muita) dedicação e persistência. Uma força que acontece, apesar do mundo. Apesar de mim.  

Sobre a autora: Ilustradora autodidata e estudante de Letras/Literaturas, na UFRJ. Entre tintas e textos, procura traduzir o caos que mora em sua mente. Acredita que rótulos são limitadores e que a vida pode ser muito mais do que aquilo que nos foi imposto quando nascemos. Mulher, mãe, artista e feminista

Compartilhe: