Eu nasci no dia de Ísis e carrego comigo o nome de suas sacerdotisas. Em um livro de fantasia, isso seria suficiente para prever meu destino, funcionaria como uma profecia e já diria muito da minha personalidade. Mas isso não é uma fantasia.
Como muito da vida real, isso também não foi planejado. Minha mãe, que até sabia do significado de “Isadora” – presente de Ísis – não fazia ideia de que 14 de maio – o dia do meu nascimento – é considerado o dia da deusa. E mesmo se soubesse, não tinha como traçar essa relação precisa: como uma boa virginiana, minha mãe escolheu meu nome bem antes do meu nascimento; eu, como boa taurina, dormi demais e atrasei alguns dias na hora de vir ao mundo. Meu 14 de maio foi uma obra minha e só minha.
Meu nome e meu aniversário, então, foram uma coincidência. Uma que eu demorei a descobrir, mas que a cada dia é mais bem vinda, mesmo que nem sempre tenha feito sentido.
Apesar do nome derivado de crenças pagãs, eu nasci e fui criada na Igreja Católica, com direito a batismo, primeira comunhão, crisma, fazer parte do coral, das leituras na missa de Domingo e participar das oferendas. Eu tinha medo do Inferno e da suposta ira de Deus, apesar de também acreditar em seu perdão.
Paralelamente, eu fui uma criança com um interesse peculiar em bruxaria. Fã devota e assinante da revista “W.i.t.c.h”, eu adorava as reportagens de temas esotéricos e os horóscopos de cada edição. Isso para não falar das bruxas e bruxos da televisão e dos livros de fantasia: Harry Potter, Sabrina, as feiticeiras de Abracadabra, todas fizeram parte da minha infância e só aumentaram minha curiosidade sobre a magia.
Esse interesse foi crescendo como um hobby e também como algo que hoje eu abomino: um guilty pleasure, um gosto que eu admitia apenas para algumas amigas próximas. Muita dessa culpa e vergonha vinha da falta de alinhamento entre as minhas fantasias mágicas e minhas crenças católicas e, por isso, eu me mantinha na defensiva – Que? Astrologia? Cristais? Eu leio porque acho engraçado, haha, mas claro que não acredito! – Era errado e poderia me afastar de Deus.
Avançamos para o meu ensino médio, um período em que diariamente eu oscilava entre beata católica e atéia crítica de uma forma dramática e não muito saudável. Mas também nesses anos, eu tive a sorte de ter uma professora bruxa. Bruxa “de verdade”: uma wicca.
Esse foi o meu primeiro contato – mesmo que indireto – com uma religião pagã. A bruxaria até esse momento era, para mim, parte de um mundo de fantasias, que eu desejava fortemente que fosse real, ainda sem saber que poderia ser. Essa mudança de realidade, descobrir que a bruxaria era uma verdade para muitas pessoas, foi estranho, mas também destrancou várias portas que eu viria a abrir.
Nesse tempo, eu ainda tinha medo de virar a maçaneta – e se alguma dessas portas levasse ao Inferno? Então virei minhas costas para elas por um tempo, e fui caminhando por outras trilhas importantes, como o do feminismo, e isso, surpreendentemente para mim, me levou mais uma vez à magia.
Estudar sobre o feminismo e me descobrir uma feminista me afastou da Igreja. Veja bem, não estou dizendo que isso é uma regra, que toda feminista é assim ou algo do tipo, apenas que foi algo que aconteceu comigo. Eu amava – ainda amo! – Deus, Maria e os ensinamentos de seu Filho, mas era inconcebível para mim algumas coisas que aconteciam ali dentro do templo, algumas falas não só desnecessárias, como também machistas, preconceituosas, homofóbicas, posturas incoerentes para aqueles que diziam amar o próximo. Jesus aprovaria isso tudo?
Eu me sentia culpada por duvidar da instituição sagrada, mas me sentia muito pior por conviver naquele ambiente que já não me fazia bem e definitivamente não me representava mais.
Fui deixando de ir à Igreja, para o breve desespero de meus pais e para o meu também. Eu, que apesar das crises na adolescência, sempre acreditei, mesmo que só lá no fundo, em algo maior, me senti largada, abandonada por mim mesma em relação a minha espiritualidade. Mas eu também não sabia o que fazer: e se eu me envolvesse em outra religião, me doasse, só para depois descobrir que não tem nada a ver comigo mais uma vez?
Com esse pesar dentro de mim, eu decidi investir na minha espiritualidade de outras formas: comecei a fazer Yoga, o que me apresentou ao budismo, que eu não sigo, mas que me mostrou um conceito de energias um pouco diferente do que estava acostumada e, juntamente com seções de terapia, me fez perceber que cuidar de mim também era uma forma de ser espiritualizada.
Cuidar de mim envolvia outros aspectos além do corporal e do mental: eu me cuido estudando astrologia e aprendendo que tudo está interligado, desde um planeta distante até a forma como eu me relaciono comigo e com os outros; eu me cuido estudando sobre o feminismo, me fortalecendo como mulher e tentando fortalecer as mulheres ao meu redor; eu cuido de mim colecionando cristais, presentes coloridos da terra e que, acreditem ou não, faz com que eu me sinta bem; eu cuido de mim me conectando comigo e com o universo através de meditações e versos que canto pra mim mesma.
Nesse longo e contínuo processo eu me descobri bruxa. Bruxa porque sou feminista, feminista porque sou bruxa. Bruxa porque eu acredito que a natureza da Terra tem muito a nos ensinar e que deve ser respeitada. Bruxa por acreditar também que o universo é grande e poderoso demais para ser ignorado. Descobri que não acredito em coincidências e que a Lua, minha deusa Ísis brilhante, está aí para ensinar que tudo tem um início, um meio, um fim e um recomeço.
Me descobrir bruxa não me afastou de Deus, na verdade, me aproximou ainda mais Dele – ou “dela”, como prefiro pensar. A crença nas energias, em uma entidade feminina, na natureza e seus ciclos, no poder da ação e da consequência, tudo isso só me fez mais eu. Eu descobri muita coisa na bruxaria, mas, é… A descoberta mais importante foi sobre mim mesma.







