por Felipe Ferreira
“… nós arrancamos tanto de nós mesmos para nos curarmos mais depressa das coisas que ficamos esgotados perto dos 30 anos…”
Não que eu esteja assim, mas reconheço que por vezes sinto uma fadiga por viver e encontrar o mínimo de coerência nessa ensandecida viagem. Vejo a cura como um placebo dos muitos que tentamos encontrar diariamente e que no fundo é pura ilusão. A pressa pra encontrar cada antídoto esbarra na peculiaridade metamórfica de cada patologia. Os males são de foro íntimo, intransferíveis e – na maioria das vezes – a cura está no primeiro parágrafo de cada ponto final.
As tipografias paternais brotam de estruturas familiares infestadas por adjetivos, bons exemplos e comparações. Bom e mal são rótulos subjetivos e ressignificáveis conforme o papel que assumimos em cada recorte do álbum de fotografias.
Meu pai é daquele tipo que não carrega recém-nascidos no colo pelo receio de machucá-los e silencia sentimentos na couraça cortante de quem não quer expor aquilo que sente sem medo algum de ocasionar qualquer remendo.
Perto dos 30 aprendi que não há culpados. Cada um arca com o subtexto da sua quietude, o significado da sua ausência e a dor de cada esquecimento.
Recentemente li um texto no blog pessoal do jornalista Daniel Silveira, intitulado: “Eu sou meu pai”.
Ele faz uma bela reflexão sobre a idade que nos atormenta e as demandas (são muitas!) que nos movem. Essa mesma falta que move respinga no título do filme da diretora Christiane Jatahy, baseado no espetáculo teatral homônimo, e é congênere as carências que norteiam nossa sede existencial.
Aos 30, Daniel faz os questionamentos que – também – me faço aos 27.
O que conquistei?
O que posso, com pro-pri-e-da-de, chamar de meu?
Sou aquilo que meu sonho queria que eu fosse?
Além de escritor, sou jornalista, moro com meu namorado, pagamos aluguel, e diferentemente do Daniel, somos pais de dois gatos (Ravier e Oliver), sou de áries e filho único.
Comigo as comparações sempre foram terceirizadas. Primos, filho de fulana, irmã de sicrano… Casa própria, carro, moto – o mínimo -, emprego estável – o ápice -, conta poupança em franca movimentação.
Planos;
Panos,
Anos;
Danos.
Meu pai não casou no papel com minha mãe, iniciou um caso extraconjugal, relutou em sair do aluguel e só teve os carros das empresas nas quais trabalhou.
Um moleque adulto se levarmos em consideração idade e ações.
O fio delicado que sentencia o “dar certo” e o “dar errado” partiu antes que eu chegasse a uma opinião formada. O que enriquece e transforma é a tentativa.
Ainda dou, mas já consigo dizer que não sou ele e sequer tentei imitá-lo.

Uma das cenas mais belas de “Me Chame Pelo Seu Nome” – ouso a dizer que uma das mais sensíveis do cinema na atualidade – é a que o jovem Elio (Timothée Chalamet) conversa com o pai, o professor Perlman (Michael Stuhlbarg).
Entre o silêncio embargado do filho e a profundidade que transborda no olhar de ambos, o monólogo emociona pela simplicidade e delicadeza da sua construção. Gestos, movimentos, respiração… O amor paternal revela os sentimentos e as dores da cria num exercício pleno de amadurecimento e empatia.
Eu queria ter sentado naquele sofá velho e ouvido tudo que meu pai tinha pra dizer e não disse, pra revelar e não teve coragem, pra ensinar e preferiu ficar pra ele.
“Apenas… Lembre-se de que estou aqui”.
Havia me habituado a nos encontrarmos somente em ocasiões familiares de profunda melancolia e morbidez: páscoa, natal e enterro (num mesmo ano foram 03 velórios).
Às vezes sou anestesiado por um lapso de memória que me faz esquecer o laço sanguíneo que nos conecta, mesmo sem uma frequente pulsação.
De tanto escrever sobre esses temorosos grãos que inquietam e nos desafiam – proporcionalmente sem intenção, mas com intensidade – lembro das noites de sábado frente à TV, das tardes de domingo nos corredores do supermercado e daquele Santos X Bahia na velha Fonte Nova.
No gol do peixe pulamos juntos e transbordamos emoção na calorosa rede de um abraço forte.
Já virei às curvas da estrada de Santos…
Assisti a um jogo do Santos…
Creio em todos os Santos…
&
Sinto um afeto “inexplicável” por esse time.

Cazuza faria 60 anos nesta data.
No exagero da sua louca e breve vida e na flor da pele da sua poesia, fomos guiados pelo mesmo sol, na primeira fila do zodíaco, mas desencontramos.
Volta e meia me dizem que pareço com o Renato Russo.
Eu queria mesmo é que me dissessem que eu pareço com meu PAI.







