Tenho afeição pela minha condição de estrangeira. Sempre fui assim: uma pessoa hiperativa, em constante movimento, porém estrangeira à cada tentativa de parar e participar de alguma coisa. Sentir-me alheia e desconectada não é novidade. Um dia comecei a estudar francês e me apaixonei ainda mais pela condição. Quando você se sente tão bem em um contexto, fica difícil visualizar os possíveis contratempos de levá-lo à prática mais extrema. Assim realizei minha transição de estrangeira a expatriada e passei a experimentar todas as particularidades do estranho.

Se você não levar em consideração os pormenores do cotidiano, estar no seu país é cômodo. Você sabe para onde correr em caso de desespero, seja por uma questão pessoal ou burocrática. Quando você debanda, o conforto vira lenda – nenhuma lei te protege, ninguém vai passar a mão na sua cabeça e vai ser difícil encontrar uma pessoa gentil com a sua dor. E nem podemos culpá-los: são culturas distintas, outras perspectivas e formas de se apropriar do mundo.

Nacionalistas até dizer chega, boa parte dos locais não possui o costume nem de sair do país. Têm ojeriza da língua inglesa e bom, estrangeiros, por que raios vocês vieram para cá? Não gosto de generalizar pois nem todos são assim, mas foi o que presenciei nas minhas duas passagens pelo interior da França. Me fez pensar um pouco sobre essa questão de mentalidade limitada do interior: talvez não seja uma exclusividade do meu país natal.

Um dia estava em uma roda com cinco franceses. Eu era a única não-nativa. Eles desabafavam sobre a dificuldade de lidar com os estrangeiros e o quanto isso atrapalhava o rendimento da turma, visto que eles nunca entendem o que precisam fazer de primeira e possuem muita dificuldade para se expressar, seja ao falar ou ao escrever. Uma queixa muito comum por aqui, inclusive, e que sempre me faz questionar os processos seletivos daqui: você não pode validar o seu dossiê se não tiver o nível de francês exigido pela universidade. Sem proficiência você nem precisa tentar se candidatar, salvo se for um programa focado no aprendizado da língua francesa. Junto à minha cara de paisagem ri enquanto tomava um tempo para absorver a mensagem e reagir apropriadamente. Anunciei que era estrangeira, caso tivessem esquecido, me desculpando pelas falhas. Nessas horas – sim, também é recorrente – sempre me lembro de Frances Ha meio sem jeito anunciando seu famoso i’m so embarrassed, i’m not a real person yet. A resposta deles é a mesma “mas você não conta, pois é como se fosse francesa”.

Desde pequena tenho curiosidade pelo contexto cultural e não gosto da ideia de aprender uma nova língua sem saber um pouco sobre o modo de vida dos locais. Foi assim com o inglês, não faria diferente com o francês. Também não poderia deixar de estudar a cultura local antes de passar dois anos chamando a França de lar. Isso sou eu. Me adaptei aos hábitos deles – embora discorde de muita coisa – e para eles isso é bem conveniente. Não contesto nada, mas não porque abaixo a cabeça e aceito tudo – mas por saber que o meu barulho pode custar caro.

Estar fora do seu contexto torna-se ainda mais desconfortável quando você lê as notícias todos os dias e faz um pequeno comparativo. As diferenças são gritantes e ninguém vai te entender quando você disser que não consegue se concentrar por estar de coração partido com a situação de seu país. Você vai reclamar de coisas que vão soar absurdas para eles, vai ter opiniões mais abertas e é provável que quebre a cara e passe algumas raivas por isso.

Na língua francesa diz-se l’étranger, como o título do romance de Albert Camus, para designar um estrangeiro. L’étrangère, se você for mulher. O termo nasceu do estranho, que em francês engole um R e vira étrange. De tanto ressignificar experiências, hoje a minha aliteração favorita – étrange étrangère – faz todo sentido e ainda me cai como uma luva.

Uma temporada morando fora te faz valorizar suas origens e entender melhor sua posição no mundo dentro do contexto de país. E, no nosso caso, conhecer a visão do colonizador, que destoa completamente das vivências do colonizado. Estar no exterior é se reinventar e aprender a abrigar o mundo dentro de si a cada minuto. Um processo um tanto doloroso e demorado para encontrar alguma medida de conforto na sua condição de estrangeiro dentro de si.

Brasileiros não são brutos e fortes por acaso.

Lidyanne nasceu e cresceu no Mato Grosso do Sul, mas debandou para São Paulo quando fez 18 anos. Era assessora de imprensa, mas um dia deu na telha mudar de área e assim foi parar no interior da França, onde tenta encontrar um rumo profissional mas segue alimentando sua paixão por cinema, música, literatura, e aquele friozinho na barriga antes de embarcar rumo a um novo destino.

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