Assim como não teme o pôr do sol, Edgar Wilson entende que não deve temer a morte. Ambos ocorrem involuntariamente num fluxo contínuo.

A morte. Aquele velho (porém muitíssimo verdadeiro) clichê de que ela é a ´única certeza que temos na vida e ainda assim insistimos em não saber lidar com ela. Edgar Wilson, no entanto, sabe, e é principalmente através dele que Ana Paula Maia nos conduz a essa história curta, incomum e cheia de possibilidades de reflexões e críticas sociais.

Na trama, o personagem principal trabalha como recolhedor de carcaças de animais nas estradas. Estradas sempre muito vazias e empoeiradas fazem com que a história pareça se situar entre o nada e o lugar nenhum. Enfiado na rotina, Wilson atende aos chamados da rodovia e parte com sua camionete para recolher esses animais, protegendo assim as pessoas de possíveis acidentes nas estradas. O “viver no automático” dele se rompe subitamente quando acaba encontrando um corpo humano jogado na mata.

Recolher corpos humanos não é o seu trabalho; legalmente e empresarialmente ele não pode tirar aquilo dali. Moralmente, ele não consegue aceitar a hipótese de ignorar o que está vendo e deixar aquela mulher apodrecendo ali sozinha. Começa então sua saga contra a burocracia e a total falta de proatividade das pessoas envolvidas nessa questão.

Através dessa pequena jornada, a gente é obrigado a pensar melhor sobre as implicações de lidar com nossos mortos. Se a vida é tão importante, a morte deve ser tratada com igual respeito. Quando um corpo sem dono aparece por aí, todo um protocolo é quebrado. Alguém tem que lidar com uma morte que não lhe cabe e alguém que teve uma vida está agora jogado ao relento. Enterrar nossos mortos funciona como uma generalização, inclusive. Na verdade, temos que aprender a lidar com eles e proporcionar um fim digno, qualquer que seja.

Ana Paula Maia tem uma escrita direta e bastante seca. Sem rodeios, sua narrativa é tão palpável que quase se torna, também, um personagem. Certamente é um livro que dá aquela reviravolta na nossa zona de conforto e a oportunidade de conhecer mais uma autora brasileira contemporânea com um talento tão particular é sempre muito engrandecedora.

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.

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