Valéria acordou trancada dentro de um apartamento que não era o seu. Um apartamento que ela sabia de era do venezuelano bonito da festa de ontem. O que ela não sabia era nome dele ou onde ele estava. Pra piorar, o bilhete que encontrou em cima da mesa não dava nenhuma dica:
lembre de beber bastante água e sinta-se em casa
tive que sair cedo e não quis te acordar
passe a chave por baixo da porta quando sair
🙂
Olhou para a porta e não achou chave alguma. Começou a procurar em cima da mesa, perto do bilhete, e pensou que algum gato podia ter derrubado no chão. Como não tinha certeza de que a casa tinha gatos a atenção deixou de ser a chave e passou a ser encontrar sinal de vida animal. Nada. Era um apartamento amplo e lindo, antigo, com janelas enormes dando para a 9 de Julho. Tirando a mesa com duas cadeiras e peças de arte que o venezuelano espalhou apoiadas nas paredes, era totalmente branco e vazio. Um espaço limpo e arejado daquele, sem telas nas janelas… não, definitivamente não havia felinos no ambiente. De forma que Valéria voltou a atenção pro papel assinado com um sorrisinho, andou pela sala, desceu as costas pra debaixo da única mesa, olhou ao redor coçando a cabeça: sem chave. O venezuelano bonito sem nome tinha esquecido de deixar a chave.
Pensou em tentar a porta dos fundos. Apartamento antigo sempre tem uma entrada de serviço. Entrou na cozinha enorme que só tinha uma máquina de café em cima do balcão de mármore preto. Pegou o pod de café no armário junto de uma xícara de vidro com jeito de coisa cara e lavou as mãos na pia enquanto a máquina preenchia o lugar com seu rrrrrrrrr automático. Bebeu água, obedecendo o recado. Com a xícara de café nas mãos voltou para a sala onde não havia nem chave, nem gato e nem sofá, só umas almofadas ao lado de um enorme globo de espelho pendurado perto do chão por um fio metálico, que refletia a luz fazendo pequenos quadradinhos na parede da sala. Era bonito de ver e meio calmante, mas os pontos luminosos a fizeram pensar se a luz refletida era da manhã ou da tarde e Valéria quis pegar o celular para ver as horas.
E então sua barriga gelou um pouco. Talvez por causa da água hidratando o cérebro ou por causa da cafeína agindo na corrente sanguínea ou por causa da ansiedade em se ver separada do celular as lembranças começaram a chegar.
Conhecia bem essa sensação. Quando em casa, a primeira coisa a fazer era sempre enfiar a cabeça debaixo do travesseiro e depois esticar o braço para pegar o telefone e começar a checar o estágio de degradação da noite anterior. Mas aqui não tinha travesseiro com cheiro familiar. Nem celular. A solução seria dormir mais e dar tempo da cabeça descansar até aparecer alguma ideia de escape. Procurar um computador e rezar pra estar destravado. Tomar mais água. Tomar outro café. Tomar um banho.
O banheiro da casa do venezuelano era minimalista como o resto do apartamento. Foi o piso quadriculado preto e branco, igualzinho ao do seu apartamento na Avenida Sao Luiz, que acionou o gatilho. Eles estavam se pegando, não transando mas se pegando com força no banheiro. Alguém bateu na porta. Era na minha casa. A gente começou a dar risada e parou e abriu. Daí a Joana e a Fabi tavam brigando, não sei por que, mas tavam brigando histericamente daquele jeito que elas fazem de vez em quando e começaram a brigar com a gente e eu fiquei muito sem graça e sem saber o que fazer. O venezuelano nem ligou e me puxou pela mão e me levou pra cozinha e a gente saiu por lá e veio de táxi pra casa dele. Aqui tava uma tranquilidade só e a gente nem transou de imediato, só deu uns tecos e deixou pra transar depois e ficou conversando até ficar de dia.
Valéria levou uns dez minutos e só levantou da privada porque a perna começou a doer. Desistiu do banho, pegou mais um copo de água na cozinha e deu uma nova chance pra busca, mas nem sinal do celular, da bolsa, da chave, do nome ou paradeiro do venezuelano. Vai aparecer, repetia, vai aparecer. Não se preocupa. Era ele repetindo na saída da festa, do club, do bar. Vai aparecer, não se preocupa. Isso tinha que ter sido antes de terem ido pra casa porque ela lembrava que na saída do bar ainda estava escuro e depois na saída do seu apartamento já era quase dia, a hora mágica da manhã. A gente entrou correndo num táxi e veio até a casa dele e eu já não estava com minha bolsa? Cheguei em casa sem minha bolsa? Minha bolsa ficou no club, festa ou bar? Que club, festa ou bar era mesmo? Ia voltar, a lembrança ia voltar que nem as coisas sumidas, que nem a chave, que nem o nome dele. Ela só tinha que dar tempo. Relaxar. Hidratar também, hidratar é importante pra fazer a cabeça voltar a funcionar, alguma coisa sobre fazer a circulação do cérebro funcionar.
Quis voltar a dormir, mas o café e o enjoo não deixavam. Deitou na cama branca e ficou olhando pra cima, pro teto, esperando a solução mágica que ia chegar junto com as coisas perdidas e a chave e o dono da casa. Mas não chegou. O que chegou, aos poucos, em minutos que pareciam horas porque lá fora a cidade começava a escurecer, foi a ordem dos acontecimentos da noite anterior. Tinha começado numa festa no apartamento do Daniel. Num momento chegou um monte de gente de uma vez só. Drogas circularam, bebida fluiu, luzes apagaram, volume aumentou. Ela se atracou com o venezuelano, provável cara mais bonito que já tinha visto na vida. Onde você esteve todo esse tempo? Eu? Ele riu, Eu acabei de chegar. Era marchand de uma galeria de arte moderna por um ano e meio, depois quem sabe pra onde? Na balada e na vida. O quem sabe pra onde do venezuelano também era verdade na noite paulistana. Tinha outra festa e eles foram juntos. Essa segunda festa era no bar-boate-puteiro de sempre, aquele da Roosevelt.
Por isso que dali foram pro apartamento dela na São Luiz, porque era perto. Foram andando mesmo e ela estava nervosa porque achava que tinha perdido a bolsa. A bolsa e o celular. Na hora nem importava tanto então ela estava só mais ou menos nervosa — porque tão bonito o sorriso do moço, tão bonita a risada dele, tão agradável ele falando português com sotaque, querendo ser gentil e dizendo que ia ficar tudo bem, que a bolsa ia aparecer. Por isso foram pra casa rindo e não foi problema entrar porque já tinha gente lá, a Joana e a Fabi, mas elas estavam brigando e foi daí que teve a coisa do banheiro e eles vieram pra esse outro apartamento, o apartamento grande e branco e cheio de obra de arte, com o colchão no chão, a roupa de cama toda branca com cheiro de suor, as almofadas e o globo de espelhos que agora não refletia mais nada porque tinha ficado escuro.
Lembrou que tinha que tomar alguma atitude, qualquer atitude, pra sair dali. Uma coisa sobre a ressaca, tanto física quanto moral, é que ela te chama pra dentro. Dá pra ficar mergulhado na ressaca durante horas porque as horas passam daquela forma estranha, meio sem passar e meio passando rápido demais. Não era uma daquelas ressacas tipo “dá pra morrer de ressaca? google pesquisar” mas era uma daquelas ressacas confusas e cheias de remorso, aquela ressaca em que a coisa mais urgente não é comer, é colocar alguma coisa em perspectiva, a ressaca que clama por análise, por apoio, por companhia. Só que ali não tinha nada, não tinha ninguém.
Aos poucos e de forma meio doída o corpo foi tomando jeito. Achou a calcinha, o vestido, os sapatos, tudo espalhado do lado da cama. Tomou uma ducha longa. Fez mais um café e saiu acendendo as luzes. Procurou debaixo da mesa, debaixo das cadeiras, debaixo do tapete e pelos cantos. Começou a achar que a falta da chave era algo proposital, que ele queria que ela ficasse ali esperando. A ideia a irritou mas Valéria sabia que não deixar a chave pra sair podia ter sido só uma distração irresponsável e quem era ela pra falar de irresponsabilidade? Quando você entra pro time das más decisões você perde o direito de reclamar dos outros. Estamos todos juntos na desgraça do dia seguinte.
O barulho do interfone tocando na cozinha do vizinho interrompeu a desgraça. Valéria correu pra cozinha, tirou o interfone do gancho e esperou. Tocou três vezes antes de uma voz de homem atender: “portaria”. Valéria explicou com um fiapo de voz, achando engraçado ouvir sua voz pela primeira vez no dia, que o dono do apartamento tinha saído e não tinha deixado a chave e que ela precisava ir embora e será que ele poderia ajudar chamando um chaveiro? “Chaveiro a essa hora aqui no Centro até tem mas vai sair caro.” Ela pensou em explicar que não tinha dinheiro, mas a voz nem saía direito pra falar que essa conta ia ficar com o venezuelano, que ele ia resolver depois. Além do mais, como explicar sem saber o nome do dono da casa? Pode chamar, moço. Eu preciso sair e não sei quando ele volta. “Ah, mas você tá falando do 72, né? O Carlos foi viajar. Ele não volta cedo, moça. Vai passar uns quinze dias fora. Peraí que acho até que ele deixa uma chave pra emergência e vou aí abrir pra senhora.”
Chave reserva. Existe uma chave reserva. O Carlos deixa uma chave reserva pra emergência na portaria. O Carlos foi para Caracas e volta em duas semanas. Ela sabia tudo isso, só não lembrava. Não lembrava por causa do resto de álcool no sangue, por causa da falta de comida, por causa do excesso de sono. Não lembrava por causa das lembranças da outra noite. Estava quase tudo bem. Estava tão bem que Valéria podia enxergar em cima da sua cama, na sua casa, a bolsa que ela tinha decidido não levar para a festa, a bolsa e o celular que ela tinha deixado pra trás para não correr o risco de perder.
Sobre a autora: Gaía Passarelli, 41, tem longa careira no jornalismo cultural brasileiro, foi apresentadora de televisão e hoje escreve sobre viagens para publicações no Brasil e nos EUA. Seu livro de crônicas de viagem “Mas Você Vai Sozinha?” foi lançado pela Globo Livros em 2016. Encontre-a em https://twitter.com/







