“Não há lugar como o nosso lar”, se tem uma coisa sobre a qual Dorothy estava certa, com certeza, é esta. Para mim, o conceito de lar anda junto tanto com o lugar físico em si quanto com a forma abstrata, pregada pela maioria das frases filosóficas e livros mundo afora – casa não é um lugar aonde você vai apenas para dormir e no qual você pode guardar suas coisas e reunir seus amigos, também é um lugar que te proporciona um sentimento de pertencimento, acolhida e vínculo, seja com pessoas ou com uma parte de si.
Descobri tudo isso quando dei um dos primeiros passos, de muitos, na longa e, às vezes, excruciante caminhada que é se tornar adulto (aos olhos do molde da sociedade, pelo menos). Quando passei em Jornalismo em uma universidade a mais de dois mil quilômetros de casa eu tinha alcançado o meu objetivo, que era sair do Estado em que eu morava há mais de dez anos. Deixar minha família para trás, o cenário que me era tão habitual e rotineiro, além de me precipitar prematuramente pelo buraco negro do desconhecido foram apenas efeitos colaterais da busca por algo que eu queria na época.
Mais do que precisar me virar sozinha em um lugar que era totalmente novo para mim, assumir as rédeas de diversas situações da minha vida, sem ter o apoio presencial e imediato dos meus pais e pagar os famigerados boletos (risos), toda essa situação me fez descobrir como ser adulta, o que, para mim, se tornou sinônimo de morar sozinha e precisar tomar decisões por conta própria. A liberdade imediata desse cenário foi embriagante, mesmo que, na maioria dos casos, eu decidisse apenas virar a madrugada vendo séries, lendo ou navegando na internet.
Mas como todo lado bom precisa de um equilíbrio (os Jedi que o digam), os primeiros fins de semana trouxeram alguns momentos desesperadores que, em retrospecto, acredito que representam de forma precisa o processo de sair da adolescência e virar adulto. Eu chorava horas fio, desesperada por todas as coisas da faculdade, bem mais desafiadora e difícil que a escola, por coisas simples como ter que fazer meu almoço no domingo e, sobretudo, pelo silêncio ensurdecedor do apartamento, que nem o mais alto volume das minhas playlists era capaz de preencher.
Foi ai que eu percebi que, por mais que eu não soubesse lavar as roupas pretas sem que ficassem cheias de fiapos, as brancas continuassem encardidas não importa o que eu fizesse, precisa-se fazer minhas compras, lidar com assuntos bancários, resolver problemas tipicamente adultos (que, neste caso, são coisas que engrossam a lista do que morar sozinha significa), como arrumar o chuveiro queimado, trocar lâmpadas, desentupir o ralo da pia, apertar parafusos e, inclusive, armar ratoeiras (sim, the struggle is real) e minha comida fosse insossa (isso quando eu me animava a sequer me arriscar na cozinha), o que mais me fez cruzar a linha para a “adultice” foi estar sem a minha família por perto, estando sozinha no sentindo imediato e presente da palavra. Isto é, eu precisei me virar.
O processo de amadurecimento e do nascimento de uma Debora adulta, pelo menos a que é preciso projetar para o mundo, foi, desta forma, composto por muitos momentos de choros sentados no chão da sala, escutando músicas intencionalmente tristes, com uma saudade ardendo no peito. Mas foi aí que passei a dar atenção ao clichê de que “lar” é onde está seu coração. Casa não é um teto sobre sua cabeça, mas sim onde você se torna feliz (ou a sua versão equivalente a isso) e ao descobrir isso foi que, com o tempo, consegui abraçar essa solidão que vinha com morar sem e, especialmente, distante da minha família.
O descobrimento do que é “ser adulto” tem significados e desdobramentos infinitos e varia de acordo com a experiência e vivência de cada pessoa; para mim esse processo esteve diretamente ligado com sair de casa e ganhar uma autonomia devido a minha decisão de buscar crescimento pessoal/profissional em um lugar que me deixou “sozinha”. E, no fim, ficou tudo bem. Hoje até já me refiro a meu apartamento como “minha casa” – no sentido físico e abstrato da palavra.






