Eu decidi fazer essa (pequena) lista, porque ela diz muito sobre uma reflexão que fiz durante minhas últimas leituras. Eu iniciei 2018 no meio de um livro que, decididamente, me fez perceber quanto a literatura não é, simplesmente, um amontoado de palavras que delineiam histórias próximas ou afastadas de nós. Não que eu já não soubesse disso, considerando que também escrevo, mas acontece que essa percepção bateu em mim como um bloco de concreto. Aquele tipo de coisa que está bem em frente de nossos narizes, mas é algo meio invisível, como se fosse tão óbvio que se isenta de explicações.

A literatura está o tempo todo ao nosso redor e, ainda assim, algumas descobertas se fazem demoradas. Às vezes, acho que isso acontece, porque elas precisam se despertar (e ser despertada) dentro de nós. As palavras e as histórias aguardam que estejamos prontos para elas, para só então dizer a que vieram.

Crescer, dentro do mundo inventado – ou tão real quanto ele é – das criações literárias, é entender que os livros são como pessoas: depois de entrar em contato com eles, você nunca mais será o mesmo. É claro que não acontece o tempo todo, já que a leitura depende de nossa bagagem emocional e de vida; depende de quem somos, do porquê decidimos fazer a leitura; do que temos a oferecer, de nós mesmos, às histórias; do quanto podemos “caber” naquela narrativa.

Então, é inevitável perceber que, depois de determinadas leituras, você cresceu de alguma maneira, em algum âmbito, ou por causa de fatores que talvez já estivessem na sua essência; ou, então, pelos que foram demandados. Sempre importa o porquê. Assim como fazemos aquelas balanças de finais de ano, dizendo quais lições aprendemos, fazemos com os livros – não porque é clichê, mas porque é inevitável. Os livros, assim como as pessoas, também oferecem o que têm. E, por isso, suas lições se tornam nossas, são parte do motivo de quem – nós, pessoas leitoras – somos. E é impossível falar de quem somos sem mencionar nossos crescimentos, nossas transformações.

Eu poderia ter começado a lista com Harry Potter, porque essa saga foi a primeira leitura sobre a qual tive consciência de que mudou algo em mim. Mas acontece que você já sabe muito (ou tudo, ou bastante) sobre Harry Potter, e acontece que eu quero falar de outras leituras, as mais próximas de mim, no momento.

 

#1: Por lugares incríveis, Jennifer Niven

O fato de eu amar livros YA significa que aceito ler absolutamente tudo sobre adolescência. Só que, é claro, a sociedade tende a estereotipar essa fase da vida em duas caixinhas: ou você é arrogante, mimada e problemática, ou você é mega popular, elitista e cobiçada. Os desajustados (diferente dos problemáticos essenciais) aparecem, mas com outro tipo de propósito, para fazer você caber no mundo (ficcional ou real).

O caso de Por lugares incríveis é o caso dos desajustados, mas com uma narrativa mais consciente. A autora não está falando somente para e sobre pessoas diferentes da conduta social, mas oferece um lugar de fala sensível, isto é, além de fazer com que você caiba no mundo, ela quer oferecer um mundo que diz que tudo bem precisar lidar com a saúde mental o tempo inteiro. A narrativa do livro não é apenas sobre caber em um mundo, mas sobre fazer parte desse mundo.

O crescimento a partir dessa leitura me proporcionou o meu autoconhecimento e reconhecimento. O livro me fez perceber que eu queria ajuda para algumas questões de saúde mental e que eu deveria ir atrás delas. Não é à toa que eu digo que devo minha vida a ele.

“Sempre fui diferente, mas pra mim diferente é normal”.

 

#2: As ondas, Virginia Woolf

Ler Virginia é difícil, eu não vou negar. Você pode levar muito tempo para ter coragem de iniciar a leitura. Clarice Lispector (se você já teve contato com a literatura dela) se assemelha à Virginia, em termos literários (embora não gostasse nem um pouco da comparação). Os fluxos de consciência de Virginia vão gerar confusão, às vezes, cansaço. Antes de iniciar As ondas, uma amiga me disse que esse é o livro mais difícil da autora, por seu caráter experimental e por ser afastado de muitas “normas” literárias usuais.

Ler Virginia é prestar muita atenção às palavras, mas não significa que não dá para se acostumar com o estilo dela. A autora Lya Luft (que traduziu muitas obras de Virginia, inclusive As ondas) disse nesse podcast que esse livro “é o mais difícil, porque são frases que vão e que vêm, como a onda que vai e que vem”. E a sensação é exatamente essa. E, por isso, talvez, eu não o tenha achado difícil – muitas vezes não entendia as situações descritas, mas não queria ficar relendo toda hora, então, apenas seguia em frente. Mas você conseguiu entender o livro mesmo assim?, você se pergunta. Absolutamente, sim – especialmente porque o caráter experimental ajuda muito nisso, a meu ver. Apesar de eu precisar estar atenta à leitura, eu não precisava de uma atenção plena.

Em termos narrativos, As ondas não agrega muito, mas o que me fez crescer foi o fato de ele me ter feito reconectar comigo mesma de um jeito muito diferente e maior do que qualquer outro livro que tinha lido até então. O amor e a gratidão que sinto por esse livro é infindável.

“Meu barquinho oscila inseguro sobre as ondas encapeladas e agitadas.
Não há remédio (deixe-me anotar isso) contra o choque do encontro”.

 

#3: A arte de pedir, Amanda Palmer

Eu não sou muito o tipo de leitora que quer saber a biografia aprofundada dos artistas, apesar de apreciar biografias. Eu sabia, bem por alto, que a Amanda é casada com o autor Neil Gaiman. Então, uma amiga me motivou a ler A arte de pedir totalmente ao acaso. O título já causa certa curiosidade: mas pedir o quê? Para quê?

À princípio, o livro pode soar como um manual, uma auto-ajuda prepotente. Mas o manual se desfaz logo na primeira página, com o prefácio de Brené Brown, fazendo com que o leitor imagine uma mulher representando uma estátua de noiva com dois metros e meio de altura. Você começa a imaginar como devem ser as vidas dos artistas de rua. Será que eles ganham mesmo dinheiro? Ou será que eles não se importam de pedir e não receber nada?

Acontece que a Amanda vai além de questões de troca – de escambos intencionais e despreendidos, de relações recíprocas e não-recíprocas e de pedidos silenciosos. Existe um recorte de sua vida nas páginas. Uma vida que não é a minha, mas que perpassa fios da minha. Amanda, nas entrelinhas, diz com certa obviedade o que deveríamos saber desde o princípio dos tempos: nossas vidas existem para além de obrigações, de convenções e de retribuições.

(Esse foi o livro que reestruturou a minha visão sobre literatura e crescimento pessoal).

“As pessoas conseguem entender uma etiqueta de preço, onde quer que ela esteja pregada. Mas tem gente que não consegue entender uma troca mais confusa de pedir e dar – o dom que se mantém em movimento. 

 

#4: Milk and honey, Rupi Kaur (Outros jeitos de usar a boca)

Eu sei, esse livro ficou bem famosinho – o que não significa que não exista qualidade nele. Em tempos de cotidianos cada vez mais acelerados, tempo não é somente dinheiro, mas renúncia, solidão, incompreensão. Mas você pode aproveitar o mínimo tempo livre que tem para ler alguns versos, porque os poemas da Rupi são simples e curtos. Ainda assim, não carregam leviandade. Esse livro não é sobre passar o tempo, mas sobre refletir acerca dele, num sentido mais social e político do que temporal.

Ler Milk and honey não é ler sobre leveza, embora nos devolva certas levezas que perdemos pelo caminho ou que sufocamos em detrimento do que esperam de nós. É difícil descrever o impacto que uma mulher tem ao relatar sobre a violência de gênero, a solidão e o apagamento dentro de si mesma a partir de um gênero literário tão pouco rude. A poesia, por vezes, é confundida com docilidade e romantismo – mas Rupi reinventa a suavidade dos versos com uma realidade que, preferencialmente, deve estar encobertada, já que as mulheres pouco contam sua história devido a fatores patriarcais que manejam a nossa sociedade.

Os poemas fazem um movimento de impressionismo no leitor: situações e emoções são traduzidas de um real verdadeiro, mas que não deixam de construir outros sentidos. O que se tira da violência, às vezes, não é ainda mais violência, mas amor-próprio e ressignificação, lições apreendidas pela autora e repassadas ao leitor de forma objetiva sem perder a cadência da poesia.

“You have sadness
living in places
sadness shouldn’t live”.

“Você tem tristeza
vivendo em lugares
onde a tristeza não deveria viver”.

 

Esse post foi possível graças ao apoio de Tammy Moraes no Padrim. Obrigada, Tammy!

Texto: Nina Spim

Escritora sonhadora dotada de blue feelings. Quer muitas coisas ao mesmo tempo. Acredita nas palavras mais do que na imagem. Não acredita na divisão das casas de Hogwarts, mas tem certeza de que é 70% Ravenclaw, 20% Hufflepuff e 10% Gryffindor.

Compartilhe: