Os ensaios Jane Eyre e O morro dos ventos uivantes, escrito por Virginia Woolf, autora britânica, retrata pequenas reflexões sobre a bibliografia e da escrita de duas das irmãs Brontë.

Charlotte e Emily Brontë tiveram uma vida relativamente curta. Entretanto, apesar do pouco tempo vivido, foi o bastante para que colocassem os seus nomes entre os maiores da Literatura Mundial. Ambas sabiam que não seria fácil se tornarem escritoras na Inglaterra Vitoriana, e para não sofrerem preconceito pelo sexo, ou serem julgadas pelos seus escritos, optaram por utilizar o mesmo sobrenome no pseudônimo; sendo assim reconhecidas, inicialmente, como Currer e Ellis Bell respectivamente. Repare que as iniciais dos nomes – a letra “c” e “e” correspondem aos nomes de registro.

Em seu texto, Virginia Woolf aponta com habilidade e sutileza os pontos em comuns e distintos que as irmãs tinham em seus romances. Demonstra por meio de uma nota de rodapé que ambas possuíam a mesma noção de cores, e utilizavam da simbologia da Natureza; invocando para realizarem uma detalhada e sensível descrição de estado de espírito das personagens. As descrevem como escritoras poéticas, e mesmo que as obras fossem, inicialmente, de difícil compreensão, a eloquência, técnicas de escrita, coesão, furor e sensibilidade das personagens causam aos leitores uma apreciação por suas obras literárias. Porém, apesar das semelhanças em algumas características, os pontos distintos apenas traçam o delinear da personalidade e opção de narrativa que cada uma optou para si.

Emily Brontë, autora de O morro dos ventos uivantes, compôs um livro de difícil compreensão, personagens amados e odiados, com diversos picos de emoção, dramático e trágico, diversas narrações descritivas do cenário; mas suas palavras escorriam poesia e destreza. Woolf faz uma delicada descrição sobre Emily, dizendo que a autora era “como se fosse capaz de estraçalhar tudo o que sabemos sobre os seres humanos e preencher essas transparências irreconhecíveis com tal rompante de vida que eles transcendem a realidade.”
O conturbado relacionamento entre Catherine e Heathcliff presenteia os leitores com passagens como essa, a seguir:

Minhas grandes tristezas neste mundo têm sido as tristezas de Heathcliff, e eu enxerguei e senti cada uma delas desde o início, pois ele é a suprema razão do meu viver. Se tudo o mais perecesse, e só restasse ele, eu continuaria a existir, ao passo que, se tudo permanecesse e ele fosse destruído, todo o universo se transformaria num lugar completamente estranho para mim, de que eu não faria parte. Meu amor por Linton é como a folhagem dos bosques: o tempo o transformará, estou bem certa, assim como o inverno muda as árvores. Meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas que jazem debaixo do chão: é uma fonte de prazer pouco visível, porém necessária. Nelly, eu sou Heathcliff! Ele está sempre, sempre no meu pensamento. Não como uma alegria, já que nem sempre sou uma alegria para mim mesma, mas como o meu próprio ser.

Apesar dos temperamentos difíceis das personagens, após ler um fragmento como esse, não tem como não suspirar, né?


Agora, a outra irmã Brontë, Charlotte, foi autora de quatro livros, porém o destacado no título e decorrer do texto de Woolf é o romance Jane Eyre. As características da mais velha das Brontë é a despreocupação em polir a obra como todo escritor profissional, pois adquiriu a capacidade de manejar e rechear suas narrativas com sua linguagem autêntica e com persuasão. Apesar de possuir a característica poética – porém utilizando menos do que Emily –, aparentava utilizar um estilo jornalístico decoroso, frio, duro, deselegante, com frases notáveis, figuras de forte contorno e expressão. Entretanto, este estilo apenas demonstra ainda mais sua personalidade forte, ferocidade indomada, velocidade, e beleza de sua prosa.


Tem-se a crença de que as mulheres, em geral, são bastante calmas, mas as mulheres sentem as mesmas coisas que os homens. Precisam exercitar suas faculdades e ter um campo para expandi-las, como seus irmãos costumam fazer. Elas sofrem de uma restrição, tão rígida, e de uma estagnação tão absoluta, como os homens sofreriam se vivessem na mesma situação. É um pensamento estreito dos seres mais privilegiados do sexo masculino dizer que as mulheres precisam ficar isoladas do mundo para fazer pudins e cerzir meias, tocar piano e bordar bolsas. É fora de propósito condená-las, ou rir delas, se elas desejam fazer mais ou aprender mais do que o costume determinou que fosse necessário para pessoas do seu sexo.


Diante a esse fragmento, você consegue imaginar o alvoroço que esse livro provocou entre os leitores da Era Vitoriana? Jane Eyre é uma heroína que ousou buscar a independência e desejar mais do que aquilo que lhe era imposto como alternativas para a vida de uma mulher.

Em outro ensaio intitulado Mulheres e ficção, Virginia Woolf cita que as irmãs Brontë foram duas das grandes romancistas mulheres, e após escrever detalhadamente a descrição de suas temáticas e estilos, só reforça a certeza que temos sobre o dom e talento que as três escritoras possuem – sendo elas as irmãs Brontë, e ao ler os ensaios de Woolf –, pois com toda convicção podemos afirmar que estas mulheres não só marcaram as páginas com letras, mas o período em que viveram com seus pensamentos e obras literárias, influenciando até os dias de hoje as mulheres.

Lorena Camilo

Lorena Camilo é bacharel em Letras, revisora de textos, feminista, lufana; viciada em podcast, música, seriado, filme, literatura e em escrever. Ama chá e detesta café, tirando isto é uma típica Gilmore. Não interage muito nas redes sociais, mas tem um Twitter.

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