As festas coincidem com o ápice da fartura do milho e do feijão. Para que os grãos sejam aproveitados ao máximo, começaram as festas juninas. Junto com a tradição europeia dos casamentos no mês de maio (feminilidade do marianismo, as flores, a profusão) e a extensão dos festejos pelo mês seguinte, cheio de santos, esta época que vai de maio a julho tem uma aura de magia no Nordeste.
Você pode até nem ser católico, pode mesmo abominar a fé devota de ícones, mas a fézinha para os santos e as simpatias não escapam a ninguém e são vistas com olhos simpáticos pela maioria das pessoas, ao menos esta época do ano. Afogar Santo Antônio ou tirar o menino Jesus de seu colo (coitado); banhar-se em rios, cachoeiras e mesmo no mar para que São João Batista nos abençoe (se não der, a conhecida vela ao lado do copo d’água com um raminho de louro mergulhado); pedir chuva à São Pedro (guardião dos céus, também derrama as nuvens e o arco-íris sobre nós a proporção certa).
A música, os contos: o Piauí, meu estado natal, tem uma tradição pecuarista muito forte. E é a partir daí que se criou uma das maiores celebrações do nosso São João, o bumba-meu-boi: Catilina, esposa gestante do vaqueiro, sente um desejo enorme de comer língua de boi, mas tem de ser a língua do boi Leição, o favorito do senhor do vaqueiro, que não integrava a quarta* das crias. O marido, então, mata o boi. Toda a dança seria para recontar a história e reviver o animal. Uma escultura, geralmente de papel machê, oca para abrigar uma pessoa que dança em círculos como o boi, cheia de fitas e espelhos, ocupa o lugar central na representação. Tambores, cantos e aboios (cantiga que os vaqueiros entoam enquanto tocam o gado e tocam os sinos) fazem o ritual de ressurreição. Enquanto meu boi viver aguentando o peso do chocalho também resistimos, cantou Luiz Gonzaga em “Último Pau de Arara”.

Ah, a fartura: cuscuz quarenta (uma espécie de angu, mas feita com farinha de milho não refinada), pamonhas, paçoca (de carne de sol e farinha, não a doce), creme de galinha (uma comida bem nordestina que pouca gente fora daqui conhece, receita abaixo), maria isabel; formando toda uma memória afetiva que começa na boca até acertar o coração.
Lembro do processo que parecia super complexo aos meus olhos de criança, mas que hoje repito sem pestanejar: raspar o milho cozido, processá-lo até ficar cremoso, misturar com queijo coalho e manteiga, adoçar e então embrulhar em palhas e cozinhar: está feita a pamonha aqui do nordeste, doce, mas não doce demais. Como somos.
Das fogueiras altas nas encruzilhadas na rua-cruzamento da Sete de Setembro, uma das principais da minha cidade, começa a fogueira para Xangô menino abençoar o resto do ano, o muito que ainda falta até que se renovem os votos de esperança do mês de outubro, em que há São Francisco, Nossa Senhora Aparecida e São Lucas.
Mas só agora vemos as bandeiras coloridas, verde-amarelas-azuis neste ano que também é Copa do Mundo, vão colorindo a cidade aos poucos, tudo se mistura; gritam gol na quermesse e os caipiras vestem as cores da bandeira. A festa é nossa, podemos tudo. E começam também, modestas, as pipas pelo céu sempre muito azul no mês junino.

A mágica das orações cantadas e dos desejos de fertilidade e celebração tomam conta de todos, e fica fácil acreditar nos milagres quando se está embriagado de tanta luz.
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RECEITINHA: CREME DE GALINHA
1 kg de peito de frango cozido e desfiado
1 lata de milho verde
2 caixinhas de creme de leite
1 caixinha de amido de milho pequena (e não precisa usar toda, provavelmente meio copo de 250ml faz o trabalho de encorpar a mistura)
1 litro de leite (pode ser mais ou menos, ele serve para acertar o ponto da cremosidade)
1 colher de sopa rasa de açafrão, 1 pimenta-de-cheiro picada, ½ pimentão médio picado (pode usar caldos prontos, mas eu pessoalmente não gosto)
Sal a gosto, alho e cebola picados para refogar e pimenta-do-reino
Polpa de tomate e colorífico para dar cor
MODO DE PREPARO
Cozinhe o frango com pimenta-do-reino, alho vinagre e caldo de galinha, deixe ficar bem cozido e desfie; pegue o caldo que o frango foi cozido e acrescente o milho, o frango desfiado, o caldo de galinha com açafrão, um pouco de leite (o leite serve para acertar o ponto, é mais cremoso que pastoso), e por último o amido de milho dissolvido em aproximadamente 250ml de leite.
Leve ao fogo, mexendo sempre, até engrossar. À medida que for engrossando, acrescente aos poucos o leite, até ficar na consistência de um creme.
Coloque a polpa de tomate e o colorífico, ponha o fogo baixo, mexendo de vez em quando para não grudar no fundo da panela.
Quando desligar, coloque as caixinhas de creme de leite e misture bem
*A “quarta” é um tipo de divisão de criações, em que de quatro crias, três são do dono do rebanho e uma é do vaqueiro/pastor
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27 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de "realidade": estudo feminismo, criminologia e sou especialista em direitos humanos.







