“When We Were Worthy”, Marybeth Mayhew Whalen


Texto: Fernanda Menegotto // Imagem: Amazon Publishing

Na pequena cidade de Worthy, Georgia (pop. 4,162), três líderes de torcida possivelmente alcoolizadas andando num carro conduzido por uma adolescente sem carteira se envolvem em um acidente de carro; no outro lado, um garoto com pouca experiência na direção que estava no meio de uma corrida seu carro quando bateu no das garotas. A temporada de futebol americano acabara de começar e o campeonato estudantil era o entretenimento mais relevante da pequena cidade, que transformava os adolescentes do time em heróis. A morte repentina e prematura de três garotas no auge de suas juventudes é sentida com força por toda a cidade, deixada num estado de luto por um longo período de tempo.

When We Were Worthy, de Marybeth Mayhew Whalen, explora as consequências dessa tragédia através das vozes de quatro mulheres cujas vidas estavam entrelaçadas às das garotas de uma forma ou outra. Tem Marglyn, mãe de Mary Claire, uma das três meninas que estavam no carro; tem Darcy, mãe de Graham, o garoto que dirigia o outro carro; tem Leah, a quarta garota no grupo, que deveria estar com elas naquela noite; tem Ava, uma professora substituta que guarda um segredo, segredo esse que uma das garotas havia descoberto pouco tempo antes do acidente. Não há muito que dizer em termos de enredo – essa é uma história sobre pessoas, sobre luto e trauma e sobre a vida sempre continuar, afinal – mas Marybeth escolhe envolver as tramas de Ava e de Leah numa persistente aura de mistério. Leva um tempo para entedermos completamente qual era o segredo que Ava guardava e o que aconteceu com Leah na noite do acidente. É uma escolha que às vezes parece um pouco fora de lugar; ainda assim, ela conseguiu me manter interessada conforme a história progredia, e a resolução dos dois mistérios lida com questões muito relevantes para as vidas de garotas e mulheres mundo afora, de modo que foi fácil perdoar a autora.

Contada por um narrador onisciente de terceira pessoa, essa história soa sempre extremamente livre de julgamentos em relação às más escolhas das quatro mulheres. Darcy sabe que o que o que filho fez foi irresponsável, sabe que ele é o culpado pela morte das garotas mesmo que essa obviamente não fosse sua intenção. Ela vê em primeira mão a dor pela qual os pais das três meninas estão passando, e tanto o acidente quanto a consequente culpa que sente parecem a ela inescapáveis em uma cidade tão pequena. Mas ela ainda assim escolhe proteger seu filho da prisão, de não ter um futuro; nada disso traria as garotas de volta à vida e não mudaria coisa alguma, não quando Graham já estava sendo consumido pela culpa. Se o que Darcy faz é justificável ou não cabe ao leitor decidir, mas somos convidados a tentar entender a personagem e suas motivações, sua dor e o modo como esta funcionava como uma força que a movia, assim como a perda sofrida por Marglyn movia a ela, embora de maneira obviamente diferente. Esse olhar duplo sobre a maternidade é o ponto mais forte do romance. A dor vivida tanto por Marglyn quanto por Darcy é palpável. Ao mesmo tempo, nenhuma mulher é apenas mãe – porque toda mulher existe para além do fato de preencher um único papel – e a trama de Darcy comprova isso. Tem a solidão, o medo, o desejo, a vida.

Existe a vida para Leah também. Ela precisa compreender como será essa vida agora que suas novas melhores amigas não estão mais com ela (que até aquele ponto fora educada em casa pelos pais). Nos dias que se seguem ao acidente, Leah tem muitas coisas nas quais pensar: na saudade das amigas, na vergonha e nos segredos que rodeiam sua noite misteriosa, no garoto que não tem apenas uma quedinha por ela, mas que confessou abertamente (de uma maneira levemente exagerada) estar completamente apaixonado por ela. A trama de Leah é representada de uma maneira muito bonita e a personagem – a única voz adolescente no romance – é cativante e cheia de camadas. Fazia muito tempo que eu não lia nenhum romance adolescente, e fiquei feliz de perceber que ainda pode ser tocante e cativante quando é bem escrito – esse arco acabou sendo um dos destaques do livro.

When We Were Worthy é, em primeiro lugar, uma história sobre perda e dor em suas diversas formas – todas as mulheres no livro perderam algo –, mas também é sobre seguir em frente. Às vezes seguir em frente significa deixar certas coisas para trás; às vezes significa finalmente brigar por algo. Essa é uma história sobre um garoto que é imprudente, embora não seja mal-intencionado, que pode ou não ser penalizado por suas ações. Em segundo plano existem outros garotos, garotos que não mataram ninguém, mas que definitivamente são mal-intencionados, e eles também podem ou não ser penalizados por suas ações, porque vivemos numa sociedade que muitas vezes simplesmente diz que garotos são assim mesmo e que nós precisamos aprender a lidar com isso. Marybeth faz um ótimo trabalho ao discutir essa questão. Ainda assim, por vezes parece que há coisas demais acontecendo num único romance, e eu me pergunto se não seria melhor dedicar um livro para cada tema. A autora consegue conectar todos os pontos de uma maneira suficientemente eficiente, mas a conexão não soa forte o bastante para justificar que essas sejam histórias paralelas.

Apesar disso, de maneira geral cheguei ao final do livro positivamente surpresa quanto a ele e quanto à autora, que eu não conhecia. A escrita de Marybeth é simples, mas eficaz, e ela estabelece tão bem a atmosfera e a cor local da cidadezinha – com seu amor pelo futebol e sua intensa participação no dia a dia das diferentes igrejas – que é uma pena que não tenhamos acesso a mais descrições ao longo do romance: sua abertura é encantadora, nos chamando imediatamente para dentro daquele mundo.

Marybeth dedica When We Were Worthy para suas filhas, e me parece muito apropriado que ela o faça. Embora eu não goste muito da categorização chamada de Women’s Fiction, ou Ficção Feminina (quer dizer, se a gente precisa mesmo usar esse nome, por que não tem uma categoria chamada Ficção Masculina?), essa é definitivamente uma história sobre mulheres. Ainda que ela fale sobre um grupo muito específico de mulheres do sul dos Estados Unidos, é um retrato múltiplo e nuançado dentro de seu próprio escopo. Ser menina – e mulher – neste mundo significa carregar um fardo extra, e eu não esperava que o livro fosse lidar com ele. Mas ele lidou, e o fez muito bem. Essas histórias precisam ser contadas. Fico feliz que Marybeth as esteja contando.

 

O livro foi cedido para resenha pela Lake Shore Publishing através do Netgalley.

 

 

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.