Volto já


Texto: Paloma Engelke

É um dia como todos os outros.

O despertador toca.

Claudia desliga o aparelho o mais rápido possível para que Rodrigo não acorde. Sai do quarto na ponta do pé, toma um banho rápido, faz café, coloca os pães na torradeira, ovo mexido para a Clara e tofu para o João, que resolveu ser vegano. Tudo encaminhado, Claudia volta pelo corredor, entra no quarto da caçula e canta musiquinhas espirituosas até que a menina acorde resmungando. No quarto seguinte ela bate antes de entreabrir a porta, o filho dorme de bruços com o rosto enfiado no travesseiro, ela vai até ele, passa a mão rapidamente em seus cabelos embolados e segue em frente rumo à parada final, de volta ao próprio quarto.

– Querido, o café está pronto. – ela sussurra próximo ao ouvido do marido, que responde qualquer coisa ininteligível.

Claudia volta até a cozinha e termina de colocar a mesa, enquanto todos os outros membros da família saem de suas tocas, ainda de pijamas, movendo-se em câmera lenta. Uma descarga é ouvida e João é o último a aparecer, vindo do banheiro.

Todos comem em silêncio, ainda não completamente acordados, menos Claudia, que a essa altura já terminou de engolir seu café e agora arruma cuidadosamente o lanche da caçula na lancheira: um sanduíche de queijo no pão de forma sem bordas, um pacote pequeno de cereal, um suco de caixinha. Em seguida finaliza a marmita do marido – que inevitavelmente só comeria besteira na rua se não tivesse ela para tomar conta – e então a própria, raspando o fundo da panela os restos do fim de semana para deixar a mais comida nova para o almoço das crianças. Quando vira novamente, todos já se foram. O barulho do chuveiro é audível. Claudia tira a mesa e lava a louça do café. Corre até o quarto porque está um pouco atrasada e passa alguma maquiagem no rosto. Passa em frente aos quartos das crianças gritando que se eles não estiverem prontos em trinta segundos vão ter que ir andando, mas eles não estão prontos ela espera. Rodrigo sai do banho enrolado numa toalha e eles se despedem com um selinho. As crianças finalmente aparecem e os três vão para o carro.

Claudia deixa os filhos na porta da escola pontualmente quinze minutos antes do horário de aula e espera até eles passarem pelos portões em segurança. Então corre até o próprio trabalho, chegando exatamente a tempo de pegar uma xícara grande de café e assumir o seu posto dez segundos antes de o chefe chegar ao escritório.

– Bom dia, Claudia. O que eu tenho na agenda para hoje?

– Reunião às onze, almoço com cliente à uma e festa de aniversário do seu filho às sete. – responde ela de cor, sem perder o sorriso.

– Dia cheio. – o homem suspira – Às vezes eu acho que adoraria trocar de vida com você.

Ela ri. O chefe acena com a cabeça, entra na própria sala e fecha a porta.

Claudia lê e responde todos os e-mails pendentes, retorna ligações, marca a visita da empresa de dedetização à casa do chefe, pede orçamentos de bufês para um evento executivo para duzentas pessoas. Almoça o mais rápido que consegue e corre para buscar o celular da filha no conserto, na volta compra sorvete para comerem depois do jantar. Volta para sua mesa e liga para casa para saber se a filha chegou bem e se foi tudo bem na escola, a menina responde de má vontade e desliga o mais rápido possível. Mais e-mails, mais telefonemas, mais orçamentos. O chefe manda que ela ligue para a cozinha e peça para a copeira trazer dois cafés e uma água para ele, ao ligar ela lembra que a mulher traga também alguns dos biscoitos importados que ele gosta, mas apenas dois porque o resultado do exame de sangue dele acaba de chegar por e-mail e a taxa de glicose não está boa.

Na volta do trabalho, busca o filho no curso pré-vestibular e tenta conversar sobre o dia dele. Não consegue arrancar muito mais do que descrições genéricas. Suspira e pragueja mentalmente contra essa maldição popularmente conhecida como adolescência. Chegam em casa, ela esquenta a comida, põe a mesa, passa dez minutos insistindo que a comida está na mesa, mas todos parecem muito absortos na televisão. Senta e começa a se servir, então todos aparecem. Rodrigo conta como foi seu dia, Clara pede para ir à casa da melhor amiga no dia seguinte depois da aula, João está completamente alheio a tudo e todos, enquanto digita rapidamente no celular.

Acabada a comida, Claudia traz o sorvete. Apenas olha os três comerem, porque notou que sua barriga estava ligeiramente estufada pela manhã e não quer que Rodrigo seja obrigado a trocá-la por um modelo mais novo e mais em forma. Pensa que devia deixar de ser preguiçosa e voltar à academia de uma vez por todas. A família começa a se levantar e Claudia pergunta se a filha já terminou o dever de casa. A menina diz que teve dúvida em algumas questões e ela promete ajudar depois que terminar de lavar a louça do jantar. João diz que vai para o quarto estudar, mas ela pode ouvir o barulho de tiro do jogo que videogame que ele adora. Rodrigo se joga no sofá com a barriga para cima e volta a assistir televisão.

Depois de a cozinha estar novamente impecável, Claudia vai até o quarto da filha e as duas terminam juntas o dever da menina. Clara pede que a mãe assista um desenho com ela e as duas deitam juntas na cama, abraçadas. Claudia sente que começa a pegar no sono, mas a menina a sacode para que ela preste atenção ao que os personagens estão fazendo. Meia hora depois, ela decreta que é hora de dormir. Ajuda a filha a vestir o pijama, cobre, desliga a luz e se despede com um beijo, deixando a porta entreaberta ao sair. Passa pelo quarto de João e dá boa noite através da porta, sem resposta. Toma um banho relaxante, veste a camisola rendada e chega finalmente ao próprio quarto, onde o marido já está jogado na cama, vestindo uma cueca desbotada e uma camisa de malha descosturada sob o braço. Deita ao lado dele e ele se aproxima, o expediente ainda não acabou. Cumprida a última tarefa do dia, ele vira para o outro lado e em menos de um minuto seu ronco alto se expande por todo o quarto como uma presença física.

Apenas mais um dia exatamente igual a todos os outros.

Claudia continua acordada, imóvel na cama, encarando um pequeno mosquito pousado no teto branco. Sente o cansaço em todas as suas células. Está cansada demais para dormir. A vida pesa. Por alguns segundos, lembra da época boa da faculdade, antes de casamento, filhos e a vida acontecerem. Fantasia sobre como poderia ter sido se nunca tivesse se casado e sido mãe, todo o seu tempo seria seu, ela teria tão menos preocupações na vida. Mas a fantasia dura aproximadamente vinte e três segundos, antes de dar lugar à culpa, ela ama o marido e os filhos, ela é muito feliz e tem uma ótima vida. Sem que ela perceba, seu corpo desliga por falta de energia.

No dia seguinte, o despertador toca e Claudia não acorda. Ela ouve o barulho, mas escolhe conscientemente permanecer dormindo. Se ela mantiver os olhos fechados, com certeza vai conseguir fazer as coisas pararem de se mover tão rápido. O barulho para, mas ela não abre os olhos para descobrir o motivo. A voz do marido chega ao seu ouvido de muito, muito distante.

– Claudia? Amor? – ela não responde, ele a chacoalha pelo ombro – Você está passando mal? As crianças vão se atrasar para a escola.

Ela ouve, ela entende a mensagem, mas algo dentro dela parece diferente e ela apenas vira para o outro lado e volta a dormir. Por algum tempo se faz silêncio, e então ela ouve os passos do marido saindo do quarto e fechando a porta.

Rodrigo vai até os quartos dos filhos, acende a luz e manda sem nenhuma sutileza que eles se apressem e façam o próprio café, a mãe está doente. Nenhum dos dois está consciente o suficiente para processar a informação, e os dois apenas o encaram com expressão grogue. Todos se arrumam e se encontram novamente na cozinha, mas Claudia continua na cama sem dar sinal de vida. Ricardo pega pão e manteiga e os três comem apressadamente, ainda se perguntando se aquilo tudo era real.

– Eu vou levar vocês para a escola hoje. – o pai anuncia.

Os três saem apressados, deixando as migalhas e a bagunça do café para trás. Do quarto, Claudia ouve a porta da sala se fechar e a casa assumir um silencio total. Paz. Finalmente abre os olhos e comtempla a luz fraca que entra através da cortina da janela do quarto e reflete nas paredes cor de creme, esparramando-se pelo chão de tábua corrida, pela colcha florida da cama desfeita e pela sua pele. Só por um dia, ela não quer carregar o peso do mundo.

Continua deitada, rolando, por quinze minutos, até que o celular toca. Ela sabe que é o chefe e não atende. Espera a ligação cair na caixa postal e desliga o aparelho, também tira o telefone fixo do gancho. Faz uma omelete de queijo e tomate e come muito lentamente, enquanto tenta continuar o livro que abandonou meses antes por falta de tempo. Percebe que não lembra de mais nada da história e volta do começo. Já está na metade quando para bruscamente, fecha o livro e volta para o quarto, sem nem pensar duas vezes sobre a louça suja e as migalhas que continuam espalhadas na mesa da cozinha.

Sobe em um banco e pesca a mala pequena e empoeirada em cima do armário. Abre-a sobre a cama e joga desordenadamente dentro dela sete livros, um biquíni, um casaco, dois pijamas, três camisetas, uma calça, um short, algumas calcinhas, um chinelo, um fone de ouvido. Sai arrastando a mala e deixando para trás a cama desfeita.

Chegando na sala, pega o bloco de recados na gaveta, rabisca alguma coisa e sai porta afora.

Queridos, mamãe tirou férias. Tenho certeza que vocês vão se virar perfeitamente bem. Volto quando tiver terminado de ler Crime e Castigo, Orgulho e Preconceito, O apanhador no campo de centeio e toda a série do Harry Potter. Nos vemos logo. Amo todos vocês.

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paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.