Ela, de novo


Arte: Raquel Thomé

TW: ansiedade, ataque de pânico

 

Um dia, eu estava dentro da sala de aula e tive uma sensação incontrolável de desespero, sabia que precisava sair dali. Não era a primeira vez que isso acontecia comigo, essas crises são uma constante na minha vida desde que me lembro por gente. Há as fases, felizmente, porque tem épocas em que tudo parece ok. Mas são, pelo menos na minha cabeça, fases.

Naquela época, não eram incomuns. Em geral, pequenas sensações de pânico que duravam poucos minutos, mas naquele dia, naquela aula, a coisa toda veio como uma avalanche na minha cabeça. Em um momento estava tudo bem. Quer dizer, a aula era meio chata e eu não conhecia nenhuma daquelas pessoas, de um curso que não era o meu, mas estava tudo bem. Até que, de repente, não estava. Do nada, eu não conseguia respirar direito e tudo em que conseguia pensar era como sair da carteira ao lado da janela e chegar até a porta sem ser notada. Em algum momento, talvez fosse efeito da hiperventilação, talvez a ansiedade chegue ao ponto de suprimir minha vergonha, sei lá, mas eu simplesmente levantei, deixando tudo pra trás, atravessei a sala na frente de quase 80 alunos e fui embora.

Quando me dei conta, não só já tinha saído da sala, como estava do lado de fora do prédio, tentando encontrar um lugar para sentar no meio da tontura induzida pelo pânico. De repente, o chão na frente do estacionamento pareceu uma boa ideia. Da mesma forma que a sensação de pânico vem, ela vai embora. Não sei o que aconteceu, mas do nada minha respiração voltou ao normal. E daí veio a ressaca emocional. Sabe quando você passa por um período difícil, estressante e aí quando termina tudo que você consegue sentir é um alívio leve com uma exaustão emocional enorme? Agora imagina se todos esses sentimentos viessem durante dez minutos?

Quando a respiração normaliza, pelo menos para mim, vêm as lágrimas. E, como alguém que odeia chorar em público, eu tento me esconder. Mas também não tinha energia mental para levantar dali sem ter alguma outra crise. Por isso, fiquei sentada, sozinha, na frente de um estacionamento, esperando chegar a hora do intervalo para sair dali.

Ainda não sei como lidei com o resto de semestre. Eu sempre ia, assinava a lista e ia embora o quanto antes. Depois daquele dia, não conseguia mais ficar naquele prédio. Toda vez que entrava, tinha um mal-estar súbito. Aquele sentimento de quando você vê uma pessoa desagradável na rua, mas se a rua fosse um espaço. É por isso que é tão difícil explicar gatilhos. Eles surgem do nada, sem a menor explicação, e te destroem em vários sentidos. Eu tentava ao máximo não passar nenhum tempo além do necessário lá. Quando o semestre acabou, mentalizei o quanto era grata por nunca mais ter que voltar lá.

Daí um dia estava chovendo. Estava chovendo e passar por aquele prédio era um atalho mais seco para o meu. Já fazia um ano, pensei, era impossível que aquele lugar me fizesse mal. Mas a sensação ruim recomeçou. E tudo que eu não precisava naquela manhã de tempestade era mais um sentimento ruim antes mesmo das 8h. Desviei pela chuva. Tênis secos não eram mais importantes que minha saúde mental.

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