Você precisa tomar um sorvete


Texto: Anna Vitória Rocha

Minha música brasileira favorita é “Baby”, porque ela começa dizendo “Você precisa saber da piscina, da margarina, da carolina, da gasolina” e isso me faz pensar num mergulho gelado num dia quente, pão fresco de manhã, carolinas muito doces num café da manhã de hotel, inspirar mais do que deveria o cheiro confuso e proibido da gasolina. São coisas banais, que a gente não precisa. Será? 

 

A música aparece pela primeira vez no álbum Tropicalia ou Panis et Circensis, lançado em 1968, que além de CD era também um manifesto tropicalista, que misturava as manifestações culturais brasileiras mais tradicionais às vanguardas artísticas europeias e também à cultura pop americana. Estavam a frente do movimento Caetano Veloso e Gilberto Gil, que trouxeram também Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão e Gal Costa para o barco. Nesse contexto, “Baby”, um dueto lindo de Gal e Caetano, usa o verbo precisar como ironia às aspirações capitalistas mundanas, aos anúncios de propaganda que afirmam que a gente precisa de um monte de coisas que, na verdade, não são nada essenciais. Ao mesmo tempo, eles cantam com tanta doçura e sinceridade, e falam de coisas tão singelas, que a gente não consegue saber direito o que é ironia e o que é verdade – e essa é a graça da música, a ambiguidade entre a doçura da ideia de um sorvete e como ela pode ser arruinada com a sugestão capitalista de uma lanchonete que te vende (a ilusão) do sonho de um sorvete. 

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A época em que mais trabalhei na vida também foi a época em que morei num quarto de hotel. A parte mais importante desse quarto era a banheira, e ainda que ela fosse quase ruim – resquícios de uma construção antiga vitimizada por uma reforma moderna e barata, uma das grandes chagas do centro de São Paulo – o importante é que ela era minha, pelo menos naquelas semanas. Eu estava realizando o sonho da banheira própria, coisa de criança mesmo, e ela me sustentava nas manhãs geladas em que eu me arrastava da cama poucas horas depois de ter deitado. Enquanto tomava banho de pé no chuveiro, olhava pra ela, que me olhava de volta como uma promessa. Se eu vencesse aquele dia, a banheira estaria me esperando. 

Sempre pensei que a melhor parte de morar em um hotel – outra fantasia infantil – seria o café da manhã. Era mesmo ótimo acordar e ter ovos mexidos sem ter que quebrar um ovo ou sujar uma frigideira, e me permitia tomar uma xícara de chá e uma xícara de café (e um copo de suco quando dava tempo) todos os dias, mas a banheira ainda era o que me fazia mais feliz. Porque eu estava sempre tão cansada e com tanto frio. Foi o pior inverno na cidade em mais de 20 anos, e os 15 minutos de caminhada do trabalho até o hotel eram suficientes para que meu rosto doesse de tanto frio, algo que nunca tinha sentido antes. Minhas mãos ficavam roxas na ponta dos dedos e passei tanto tempo de meia, às vezes com várias meias, que era sempre uma surpresa encontrar meus pés no final do dia, naqueles poucos minutos do banho em que eles apareciam descobertos. E então a água quente, a sensação de estar submersa, livre de toda aquela roupa, mais aquecida do que em qualquer outro momento do dia; o cheiro de sabonete, os dedos enrugados, a música que tocava, a visão embaçada por todo o vapor acumulado no banheiro, aliviando meu sistema respiratório ainda não acostumado a andar tanto a pé em São Paulo. Na minha primeira noite de sexta-feira naquele quarto de hotel, tomei um banho de uma hora e meia.Em A Redoma de Vidro, Sylvia Plath escreve que uma banheira com água quente é o lugar onde ela se sente mais como ela mesma. Não sei se meu gosto por longos banhos de banheira vem da sensação de extraordinário contato comigo mesma e com quem eu sou ou se é o extremo oposto – se é naqueles momentos embaçados e úmidos que posso esquecer de mim e da minha cabeça, pelo menos por alguns minutos, numa espécie de fuga. Ou pausa. Porque fuga pode parecer algo negativo, covarde, mas todo mundo merece uma pausa.

E um café. Todo mundo merece uma pausa para um café. Café é a minha pausa favorita, são alguns minutos amargos suspensos no tempo das coisas em que você simplesmente para. É uma questão de sobrevivência. Não é sobre cafeína – ainda que ela faça o retorno ao mundo mais fácil – é sobre se permitir um descanso. Queria que as pessoas entendessem que quando as convido para um café, não estou falando sobre café. Pode ser uma água, um chá, um refrigerante, uma cerveja, mas quando chamo alguém para tomar um café estou chamando aquela pessoa para fugir por algumas horas e esquecer da vida, falar bobagens, comer alguma coisa gostosa, rir, falar mal dos outros, esquecer o relógio. Para mim isso é um café. Se necessário, podemos mergulhar na vida, na própria cabeça, ter conversas profundas e difíceis, rasgar o coração. Isso são dois ou três cafés. O ritmo insano da nossa rotina não permite esse tipo de imersão, então vamos burlar o sistema e ir ali tomar um café.

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Gosto desses pequenos prazeres porque a gente não precisa deles. Você não precisa tomar um banho longo de banheira quando existe um chuveiro. Você não precisa sair para tomar um café – o café que você precisa tomar nunca tem o mesmo gosto do que aquela você toma porque sim, porque quer. São pequenas resistências na forma de coisas supérfluas e doces, e ainda que seja meio bocó acreditar que um longo banho de banheira seja um manifesto político, visto que não existe sonho mais classe média que esse, ainda me parece uma resposta adequada à grande máxima de não pensar em crise, mas trabalhar. Não pense em nada, esqueça o relógio, take your time, tome um longo banho, um café que dura a tarde inteira, um sorvete de sobremesa. 

Quem me ensinou a amar Gal Costa foi minha avó. Quando eu era criança, na época do horário de verão, ela me buscava na escola, me levava pra casa dela, colocava um colchão velho no quintal e nós ficávamos deitadas vendo desenhos nas nuvens e ouvindo Gal. Baby já era a música que eu mais gostava. Ela não precisava fazer isso, mas não seria ela – e não seria eu – se não tivesse feito. Com isso eu aprendi que a gente pode sequestrar o tempo e fazer dele todo nosso, nem que seja só até a última bolha de sabão se dissolver na água, agora já não mais tão quente, com o vapor condensado escorrendo em gotas no vidro como quem diz que é hora de sair. É uma pausa para fazer do nosso pequeno mundo um lugar melhor, nos dando a oportunidade de fazer necessárias as coisas menores, já que as grandes – casa própria! carro do ano! emprego tradicional! viagem para Trancoso! – não parecem vir de nós, nunca estiveram tão distantes e mais esmagam do que nos salvam.Uma pausa. Um sorvete. Um sonho. É disso que a gente precisa.

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Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida – e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.

  • Marina Matos

    Anna, obrigada por este texto.
    Como sempre, você falou tudo e deixou um sentimento bom aqui.

    <3

    Beijo!

  • Silvia Caroline Araujo

    Que lindo, Ana!