Você é o que você lê


Sabe quando você lê um livro em que uma protagonista se acha horrorosa, mas na verdade ela é bonita, e aí você pensa – nossa, mas se ela é feia, então eu sou o quê?

Sabe aqueles trezentos romances onde os mocinhos são sempre milionários e lindos e musculosos e sensuais, e você busca um único diferencial, mas na verdade são todos iguais?

Sabe aquele mar de personagens complexadas, que precisam da chegada de um novo amor pra poderem se valorizar?

Então. Eu odeio tudo isso.

Acho que todo mundo já leu pelo menos uns dez livros que se encaixem, se não em uma, em todas as frases acima. É muito comum nos romances contemporâneos o amor próprio ser visto com certa banalidade. Em prol de romances épicos, autores sacrificam o ego, e em vez de personagens fortes, nos fartamos de gente fraca vivendo histórias que mudam suas vidas, em vez de elas próprias serem a mudança.

O que mais me incomoda nessa lógica é que, de uma maneira ou de outra, nós somos moldados por aquilo que lemos. Quem gosta de ler com certeza consegue imaginar um livro que tenha transformado sua maneira de olhar o mundo. Logo, a maneira como cada autor escolhe trabalhar certos assuntos é de extrema importância. Ainda que não seja o nosso intuito, nós estamos educando quem lê, direta ou indiretamente. Alguém um dia pode olhar pro meu livro e dizer “eu quero ser essa personagem”. E, sabe, eu ia ficar muito incomodada se alguém quisesse ser uma personagem que, na verdade, não tem um pingo de autoestima.

A autoimagem vem se tornando um problema cada vez mais pertinente com o passar dos anos. Nunca se falou tanto no assunto quanto nos dias de hoje – afinal, somos bombardeados por uma mídia impiedosa, que vende imagens daquilo que queremos comprar, do que queremos ter e, via de regra, do que esperam que a gente seja. O mundo já decidiu por nós o que é bom e o que é ruim, e isso pode bagunçar a cabeça de muita gente. Os problemas aparecem de todas as formas: na obesidade, na anorexia, na ansiedade, na depressão. Vivemos um mundo de extremos, em que o normal não é aceitável, e onde estamos todos lutando por uma sensação de pertencimento que achamos que virá com uma determinada imagem física. A gente não precisa que ninguém diga que somos inadequados em voz alta – está aí pro mundo inteiro ver, o tempo todo.

E aí, vem os livros.

Uma menina de quatorze anos pega Crepúsculo para ler. Ela passa por quatrocentas páginas de açúcar vampiresco puro, onde a protagonista, que se acha feia e sem graça, indigna da atenção de um garoto bonito, se envolve com o dito bonito misterioso e continua se sentindo um lixro durante toda a narrativa, se recusando a se sentir bem mesmo quando ele tenta convencê-la disso. Lá pelo quarto livro, essa adolescente leitora já estabeleceu uma conexão com essa protagonista – afinal, ela também se sente inadequada e esquisita – e já entendeu, quando chegamos ao final da saga, que a única maneira de ser feliz de verdade é ao lado de uma pessoa que a complete, porque ela, feia e solitária que é, é incapaz de se completar sozinha.

Agora me diga, você acha isso legal? Vamos lá. Se você se esforçar um pouquinho, vai perceber como isso está errado.

Longe de mim achar que Crepúsculo é a razão da ruína da literatura e do amor próprio, ou culpado de todos os problemas do mundo – eu mesma li e gostei pra caramba dos livros, me julguem. Também não acho que nenhum autor ou livro tem a obrigação de fazer o papel de psicólogo de ninguém, ensinando alguma coisa pros seus leitores. Mas, sabe, livros são mensagens. Uma mensagem que será recebida, entendida e interpretada por alguém. E mensagens podem ser perigosas. Então, por que não se esforçar um mínimo que seja pra que a mensagem do seu livro seja positiva?

Por mais livros em que as protagonistas se amem. Por mais personagens gordas, baixinhas, com acne e verrugas no nariz vivendo grandes histórias, pois todas somos dignas delas. Por mais mocinhos imperfeitos, pobres, de cabelo esquisito e humor duvidoso. Por mais gente comum, que nos façam perceber que o extraordinário não está do lado de fora, mas sim dentro de nós.

Aproveito a oportunidade pra fazer aquele merchan básico e convidar vocês a conhecerem meu novo livro, Amor Plus Size. Clique aqui e saiba mais.

Compartilhe: