Você é o criador do seu próprio mérito?


Texto: Paloma Engelke

Todo mundo quer uma vida melhor. Todo mundo quer fazer parte do grupo privilegiado e restrito que tem do bom e do melhor. Todo mundo quer subir na vida. Essa não é só a premissa da série 3%, essa é a realidade.

A glória é o bem mais escasso do planeta, mas ainda assim o discurso corrente é que ela está disponível para qualquer um que se esforce o suficiente. Se você não conseguiu, a responsabilidade é toda sua. “Você é o criador do seu próprio mérito,” diz a série. O universo de 3% é distópico, mas não tanto assim.

Nunca antes uma distopia se esforçou tanto e teve tanto sucesso em escancarar o discurso hipócrita da meritocracia. Passada em um futuro não muito distante e bem aqui, no Brasil, a série mostra uma realidade dividida entre os 97% da população que precisam se virar para sobreviver em uma terra miserável e cheia de violência, e os 3% que podem viver em uma bolha de paz, harmonia e segurança, fisica e faticamente separados de todo o resto.

Mesmo que todos os participantes do processo venham do Continente, nem todos são iguais. Existem pessoas como o Marcos, criado em uma casa protegida, com comida e alguém para cuidar dele e com certeza absoluta de que ele é superior e merece estar entre os 3%; e existem Joanas, que se viraram sozinhas desde sempre, e nem registradas foram. Acreditar que os dois estão em pé de igualdade em qualquer competição é passar atestado de ingenuidade, ou de má-fé.

Nesse contexto, alguns têm consciência da injustiça do processo, mas também existem aqueles que — mesmo vivendo no Continente — acreditam de verdade nele e que têm chances de vencer na vida por esses meios. É nisso que essa ideia utópica de glória se sustenta. Existem religiões que defendem com fé fervorosa que é assim que as coisas têm que ser, que incitam a obediência; e existem aquelas pessoas que, sem acesso aos verdadeiros culpados pelo estado das coisas, se voltam contra pessoas que não estão em uma situação tão diferente assim da sua.

Não existe meritocracia real quando o ponto de partida não é o mesmo. A ideia de uma sociedade dividida em que alguns poucos têm tudo enquanto o resto não tem nada, e que cabe a cada um definir em qual grupo vai estar nos leva de volta à ideia de que os fins justificam os meios — vale tudo para salvar a própria pele, e o que está em jogo, em último caso, pode ser a sobrevivência.

Qualquer metodologia que se apresente para determinar quem fica em um grupo e quem fica em outro não pode ser nada além de arbitrária. Quem determina o que é mérito? Quem estabelece os critérios e por que esses critérios escolhidos são mais válidos do que quaisquer outros? A única resposta possível é: o poder, e o poder frequentemente não é justo. Não existe justiça na meritocracia em uma sociedade desigual, e nesse sistema a glória é reservada para poucos; para aqueles criados para a glória, e em raros casos para as exceções que confirmam a regra.

O próprio conceito de glória é abstrato e socialmente construído. Muitas vezes, para chegar lá é preciso abandonar alguns princípios morais pelo caminho. Até as melhores intenções conhecem seus desvios.

Então fica a questão: em uma sociedade como a nossa (e a de 3%), a glória é realmente algo relevante?

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Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.