Vivendo no futuro do pretérito


O que “A Invenção de Morel” ensina sobre transtornos de ansiedade

O tempo verbal mais triste é o futuro do pretérito, o das possibilidades perdidas. As coisas que deveriam, poderiam mas não foram, incapacitadas ou paradas de alguma forma. No livro de Bioy Casares esse conceito de tempo-sendo perdido e retomado de modo precário-é exposto através de uma narrativa fantástica que mescla passado, presente e futuro.

Personagem sem nome, o narrador é um fugitivo de uma prisão em algum lugar da Venezuela que acaba em uma ilha do Oceano Pacífico após algum tempo à deriva. Conforme explora o terreno inóspito, o personagem percebe que houve uma epidemia de um mal misterioso. Acuado com o perigo do contágio, ele explora o local aos poucos, com muita cautela.

De início, o narrador estranha a falta de habitantes, até que se apresentam para ele pessoas com trajes elegantes e atividades sofisticadas, bem como grandes construções com ar abandonado, algo que o deixa intrigado. Há também uma mulher, Faustine, que desperta sua curiosidade e paixão, impulsionando a busca por respostas sobre o lugar e essas pessoas. Logo descobre que aquilo parecendo ser indivíduos são projeções de um passado recente, estas sendo fruto de uma máquina mirabolante criada por Morel, inventor que tentou capturar o tempo em impressões semelhantes a hologramas.

Bioy Casares trata dos chamados “instrumentos de superar ausências”, como máquinas fotográficas e gravadores de som, que nos captam como fantasmas, pois reproduzem essas impressões de nossa existência para um futuro que talvez não acompanhemos. Se nos anos 40 ele já se preocupava com isso, as representações pictóricas pessoais despidas de quaisquer significados ou memórias, imagine só se vivesse hoje, em época de Instagram.

Um dos temas do livro é a exposição contínua nossa marca sem nenhuma alma, uma crítica afiada à captura de imagens sem qualquer consciência de seu valor e o que uma cultura de aparências tira de nós, além da expectativa quase doentia de ter uma imagem perfeita. O diário que o fugitivo encontra e sua própria narrativa mostram-se surpreendente contrapontos a toda essa memória plástica, pois apresentam a memória de toda essa experiência de modo real e sem fantasias, explicando o quanto de dor e sacrifício a invenção implicou a Morel e seus voluntários. Por este motivo, também, o “preço” cobrado pelo artefato, nos dias atuais o desejo de ter essa projeção de imagem perfeita, motivo de frustração, tristeza e muita ansiedade.

O desejo de Morel de ser eterno e perfeito para o futuro acabou aniquilando seu presente, eis que cada captura de imagens e sons em projeções debilitava o corpo e a mente dos indivíduos expostos, deixando os voluntários da experiência com aspecto cada vez mais doentio, o que talvez tenha dado início aos rumores sobre a epidemia na ilha, nada mais que o desgaste carnal provocado pela invenção de Morel.

Essa parte do livro me fez relacioná-lo ainda mais com a vivência da condição de ansiedade: o foco no futuro desgastando o presente, pois as possibilidades, em lugar de empolgar, trazem dor, obsessão e tormento para a mente ansiosa. Há três anos, ao ter que realizar atividades corriqueiras, comecei a de repente sentir o coração bater na garganta, suava frio, perdia o ar com facilidade e meu estômago revirava (a ponto de vomitar) ao pensar em fazer atividades diárias, estas sendo apenas repetições, como pegar ônibus, ir à aula, falar com as pessoas: tudo me deixava aterrorizada porque na minha mente eu criava projeções de tragédias e fracassos ampliados.

Era o meu passado muito metódico (por necessidade) prejudicando meu futuro com suas impressões funestas e paranoias, era o Transtorno de Ansiedade Generalizado (TAG). Coisas novas se tornaram esforços hercúleos de preparação e pensamento, pois eu só conseguia pensar como tudo poderia dar errado e degringolar com base em pouquíssimos indícios disso na realidade. Porém, não adiantava me convencer disso: eu apenas temia. É muito alto o preço de tentar mudar coisas que não podem ser modificadas, como a morte, a dor, os erros. Ser ansioso é temer todas as coisas da vida porque elas não formam “imagens perfeitas” e parar de viver aos pouco como se o nosso medo evitasse que elas acontecessem. Mas não evita, e viver temendo só tira muito do sabor dos dias e muitos aprendizados.

fanart de Carlos Caires da invenção de Morel reproduzindo Faustine

O autor deixa muito claro o quanto são falhas quaisquer tentativas de aprisionar ou projetar futuros, eis que denomina todas de fantasmagóricas, pois não há consciência ou sentimentos reais naquilo, não existe a subjetividade para fazer dessas imagens humanas de fato. Vemos como o tempo cobra seu tributo cruel ao debilitar o indivíduo exposto à máquina, paradoxalmente reduzindo uma existência que irá, por função, perpetuar. Na ansiedade, o preço das nossas “projeções” é nossa energia, que parece ser drenada a cada pensamento de catástrofe.

Tentado a experimentar dessa forma precária de imortalidade, o prisioneiro também se submete à impressão de sua forma, e começa a morrer aos pedaços como os outros, compreendendo que definhará no local, pagando o preço de restar eternizado, eis que não tem muitas outras saídas possíveis, debilitado como está e foragido. O fugitivo do presente então vira prisioneiro da sua imagem futura, nada mais alegórico para o viver ansioso.

*O TAG, assim como outros transtornos de ansiedade, tem tratamento e cura. Se você sente angústia repentina, dores no peito, dificuldades para respirar, sudorese e tremores em situações estressantes ou apenas ao lembrar que elas podem acontecer em pensamentos cíclicos e obsessivos, procure ajuda. Não viva no futuro do pretérito, esse tempo tão triste.

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de "realidade": estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.