Vinte e nove minutos


A gente corre quatro lances de escada e sai da garagem escura com o cheiro característico de monóxido de carbono direto para uma praça tipicamente paulistana. Íngreme, próxima demais do barulho e do frenesi das ruas ao lado. Uma praça, de qualquer forma. Mas nesse dia não há tempo para fazer uma pausa ali, muito menos entrar no parque ao lado. Temos uma tarefa a cumprir e o tempo pode não ser suficiente.

Alguns metros de ladeira depois, estamos na avenida Paulista. Me oponho à ideia de ir à Paulista de carro, mas minha companhia não apoia o plano do ônibus. Mas assim, tento argumentar, estamos sujeitas ao grande sofrimento dessa cidade: os estacionamentos. Ela me assegura que teremos tempo, mas não me parece provável.

Minhas suspeitas se confirmam ao chegarmos a nosso destino. Existe inferno e existe uma galeria da Paulista no horário de almoço de sexta-feira. O mar de pessoas que se espremia pelos corredores estreitos em busca de óculos falsificados, cópias de baixa qualidade de jogos de videogame e – claro – paus de selfie quase derrubava os estandes.

Tudo isso me faz ter um flashback para uma situação parecida lá pelos meus dez anos. Estava com a minha mãe na 25 de Março – outro pesadelo paulistano que todos nós temos que enfrentar de vez em quando – e a polícia apareceu. É claro que bem nessa hora eu estava em uma dessas galerias lotadas e todo mundo teve que sair pela porta dos fundos para uma rua auxiliar. Não recomendo a ninguém a tentativa de descer escadas correndo ao lado de senhoras coreanas carregando sacolas de “iPods”.

Nesse dia em 2015, eu já tinha passado da fase de visitar stand centers, mas tivemos que passar por lá depois de um ceular estragado em uma queda. Dessa vez, colocaríamos o vidrinho de proteção e, lógico, o lugar mais barato era ali mesmo. Além disso, tínhamos também a tarefa de encontrar alguma bugiganga de que não lembro mais.

As películas de vidro foram fáceis, até porque estavam em todos os lugares, disputando até com os paus de selfie o título de mercadoria presente em mais estandes. Já a bugiganga qualquer não podia ser encontrada. Demos voltas e voltas pelo lugar – e foi aí que descobri um piso inteiro que ainda não conhecia – mas nada. Nesse meio-tempo, também cometi o erro de ser atraída por uma loja de óculos. Será que esse estilo combina comigo? eu me perguntei, mesmo sabendo que qualquer modelo de óculos escuros redondos só acentua o formato do meu rosto. Tirei uma selfie, só para garantir – como disse a rainha Cher Horowitz, não confio em espelhos – mas deletei na hora. Não valia nem pro Snapchat, imagina baixar e postar em uma rede social menos efêmera? De jeito nenhum.

Depois de mais algumas voltas e algumas paradas consumistas, desistimos. Não íamos achar o que queríamos mesmo. Eis que na saída, o sol estava mais forte, as calçadas mais cheias e o horário de almoço terminava.

“A gente ainda tem um tempo” minha companhia me disse.

“Não acho que seja uma boa ideia atrasar” respondi, sempre deixando transparecer a preocupação com coisas mínimas.

“Ai, calma, vamos parar no McDonald’s pra eu tomar uma coca” ela disse, nem notando meu pânico com a ideia de uma fila do McDonald’s às 13h30 da tarde quando tínhamos um tempo a cumprir. Mas como até eu me rendo, decidi parar enquanto isso no Rei do Mate na mesma quadra e aproveitar que já tínhamos estourado nosso tempo com um mate gelado. Tá na chuva é pra se molhar, né?

Tenho o costume de andar rápido mesmo quando não há porquê. Talvez seja um efeito de ter crescido na cidade maníaca que é São Paulo na maior parte do tempo, onde a correria pra não perder o ônibus é mais rotineira do que o café da manhã. Ou talvez seja porque a física me ajudou e a volta era na descida. Em menos de dois minutos, estava de volta ao estacionamento de origem, correndo escadas abaixo.

“A senhora tem seguro? A gente tem desconto pra quem tem carteirinha da porto”, perguntou o senhor simpático do caixa.

“Quanto é o desconto?”

“30%”, ele respondeu, pacientemente. Minha companhia já ia tirar a carteirinha da bolsa, mas lembrou que estava no carro, andares abaixo de onde o caixa ficava.

“Quanto tempo a gente ficou?” ela perguntou?

“29 minutos” o senhor simpático respondeu, já estranhando um pouco porque alguém estava fazendo tantas questões a respeito de um desconto. Ele claramente preferia estar prestando atenção na tela da TV que ficava na salinha.

Foi aí eu, a pessoa mais hashtag humanas, tive que agir rápido. Com certeza demoraríamos mais de um minuto para descer as escadas, atravessar o subsolo, pegar a carteirinha no porta-luvas e e trazê-la de volta. Ou seja, o período mudaria de menos de meia hora para “até uma hora” e isso significava, no submundo dos donos de estacionamentos, um aumento considerável no preço. Mas e o desconto, como ficava? Com as minhas humildes habilidades matemáticas, percebi que (x + y) 0,7 > x. E desistimos de pegar a carteirinha, ficando nos nossos vinte e nove minutos e gastando alguns centavos a menos. Ficam aqui minhas desculpas a todos os pobres coitados que me deram aulas de álgebra: você nunca sabe quando vai mesmo precisar fazer equações na hora de passar no caixa.

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.