Vínculos duradouros


Texto: Marília Barros

A irmandade das calças viajantes definitivamente não era o tipo de livro que me chamaria atenção naquela época. Eu tinha dez anos e pouquíssimo interesse em saber o que personagens adolescentes pensavam, a não ser que isso envolvesse histórias de fantasia, aventura ou crimes. Mas é claro que as calças viajantes, usando os seus poderes, acharam que seria importante entrar na minha vida. Ou talvez a mãe de uma amiga tenha dado o livro de presente para a minha irmã, o que é quase a mesma coisa.

Eu não me lembro de quais foram os pensamentos que tive ao ler o primeiro volume pela primeira vez, mas sei que adorei o livro desde o começo, que passei a relê-lo com frequência naquela época e que fiquei muito feliz quando foram lançadas as três continuações.

Alguns anos depois, descobri que esse não era o fim da série: a autora, Ann Brashares, havia lançado um quinto volume, chamado de Sisterhood everlasting, por enquanto não lançado no Brasil, sobre as garotas dez anos depois do último livro. Fiquei dividida entre achar isso bom ou ruim, porque cansei de lançamentos caça-níqueis, mas decidi que daria uma chance. A chance, é claro, viria acompanhada de mais uma releitura dos livros anteriores – com cerca de sete anos de distância da última releitura, gostaria de saber se os livros ainda seriam tão adorados por mim.

E o resultado foi… o que tinha de ser. Continuo valorizando muito o foco que os livros dão para as amizades femininas, e de como eles são construídos: as protagonistas estão separadas na maior parte do tempo, o que dá espaço para desenvolverem a própria história, envolvendo outros temas como relacionamentos familiares e amorosos, mas elas sempre aparecem de alguma forma nas histórias umas das outras, nem que seja em lembranças. Gosto também de como são quatro protagonistas, todas com personalidades diferentes, mas sem encaixarem nas panelinhas tão típicas de outros romances adolescentes. Como os livros se passam nas férias de verão, estamos distantes do universo escolar tão explorado em outras histórias, de tramas de populares contra excluídos, ou de atletas namorando líderes de torcida.

No entanto, não posso negar que as personagens seguem certos padrões, sendo constantemente ligadas a essa característica: Lena é bonita e tímida, Carmen é dramática, Bridget é atlética e impulsiva, Tibby é mal-humorada, mas elas não se prendem a isso, e essa variedade de comportamentos abre uma boa margem para identificação: com alguma das personagens pelo menos você vai se conectar, e com alguma das questões que elas apresentam também, em maior ou menor grau.

Mas, ao ler cinco livros das garotas em seguida, esses padrões se tornam repetitivos. Os dramas delas são parecidos entre si, de forma que em todos os livros elas sofrem por algum motivo e superam a questão para no livro seguinte se depararem com outro problema parecido, como se não tivessem aprendido a lição. É cansativo, mas também é realista, convenhamos: estamos sempre diante dos mesmos problemas, porque muitos deles vêm de outra questão maior que é mais difícil de mudar. Assim, Lena pode sofrer por Kostos e superar a insegurança em um momento; mas não é porque ela superou uma vez que será automaticamente a pessoa mais confiante do mundo.

Outra coisa que me incomodou na releitura, relacionada também à estrutura dos livros, é que quase tudo se resolve no final, e em geral são as protagonistas que cometem os maiores erros. Todos os personagens coadjuvantes são compreensivos demais e sempre as perdoam. Novamente, isso tem um lado bom e um ruim: o bom é que para muitas pessoas isso é verossímil – nós somos nossos maiores inimigos. O ruim é que fica um otimismo às vezes exagerado demais e que cria expectativas pouco realistas para a vida – o que não é nada surpreendente considerando que calças que vestem bem quatro garotas de biótipos diferentes são uma parte importante da história.

Sisterhood everlasting, o tal do último livro da série, apresenta as mesmas questões, mas em grau maior: a amizade delas está mais distante no início, todas ocupadas com a vida adulta, mas algo acontece. Eu estava realmente questionando a minha escolha de ler o livro durante talvez dois terços da leitura: Ann Brashares, esse algo precisava mesmo acontecer? Elas precisavam sofrer tanto? Mas, novamente, o final traz o sopro de esperança necessário típico dos outros livros da série.

No geral, gostei do que encontrei na releitura: continuo adorando o primeiro volume, sem dúvida o mais emocionante, e, como já disse, gosto dos valores que os livros trazem. Mas já não acredito tanto na história e não tenho mais paciência para alguns dos seus defeitos. A irmandade das calças viajantes pode não entrar na minha lista de livros favoritos hoje, e talvez eu goste mais do vínculo que tenho com a coleção – do fato de ser uma série que me acompanhou por muitos anos  e que me abriu para outros romances adolescentes – do que dos livros em si. Mas isso não é um problema: as pessoas mudam, mas de alguma forma os vínculos permanecem.

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Sobre Marília Barros

Marília é paulistana e estuda Letras. Gosta de bibliotecas, de animações e de coelhos. Não é a preguiça da foto, mas bem que gostaria de ser.