Viajar nas cartografias de Ana Martins Marques


Texto: Bruna Kalil

Sempre acabo tomando o caminho errado

que falta me faz um mapa

que me levasse pela mão

Ana M.M.

 

Em tempos de Google Maps e Waze, a maioria de nós perdeu (ou nunca teve) o hábito de consultar mapas. Acabou a época em que parávamos os outros na rua para pedir informações, ou consultávamos os mapas do banco do passageiro enquanto dirigíamos. Por isso, é com surpresa e alegre nostalgia que o leitor anacrônico se depara com a série “Cartografias”, da mineira Ana Martins Marques.

Composta por 10 poemas, a seção integra o já premiadíssimo “O Livro das Semelhanças”, lançado em 2015 pela Companhia das Letras. Em termos gerais, os textos abordam a dualidade entre dois aspectos da imagem que é o mapa: a sua materialidade, simultânea ao seu simbolismo. Ou seja, ao mesmo tempo que o mapa é um objeto que pode ser tocado, dobrado, levado debaixo do braço; é uma reprodução simbólica dos lugares que nele estão desenhados. Entretanto, a total coincidência dos dois espaços – onde o mapa, materialmente, está; e o ponto no mundo que ele retrata – é quase impossível, e Ana é consciente desse impasse; embora teste-o:

“Você fez questão

de dobrar o mapa

de modo que nossas cidades

distantes uma da outra

exatos 1720 km

fizessem subitamente

fronteira”

A questão do simbolismo imagético é constantemente testada, provocando o leitor com construções inusitadas:

“Rasguei um pedaço do mapa

de modo que o Grand Canyon continua

na minha mesa de trabalho

onde o mapa repousa

 

desde então minha mesa de trabalho

termina subitamente num abismo”

Ao relacionar os caminhos traçados nos mapas com os descaminhos amorosos, a mineira tece versos muito líricos, com a linguagem apurada e constantemente ambígua. Em um poema, mostra um eu-lírico que saiu correndo para encontrar um amante, mas, embebido pela “pressa feroz do desejo”, acabou esquecendo em casa o mapa com o endereço do encontro. Há também as construções imediatas, porém ainda eficazes, que surgem ao falar desse assunto: “e eu passava horas estudando / todos os caminhos que me levariam até você”.

A linguagem geográfica, propositalmente levada ao limite, toca em temas como a escala – “mais rápidas do que aviões / as formigas atravessam / de um continente a outro” – e a questão do fuso-horário:

“Quando enfim

fechássemos o mapa

o mundo se dobraria sobre si mesmo

e o meio-dia

recostado pela meia-noite

iluminaria os lugares

mais secretos”

Esse eu-lírico provocativo, que faz intervenções instigantes na estrutura canônica da cartografia, busca criar uma nova pangeia – agora simbólica –, na qual não existem distâncias entre as imagens e os pontos que elas representam. É essa voz, também irônica, que confessa: “Não sei viajar não tenho disposição não tenho coragem”, deixando que o leitor complete: “se não sei viajar, então vou brincar com os mapas, as distâncias, os símbolos”. E, ao mesmo tempo que se entra nessa jornada, o seu mapa de tiracolo também vira aventureiro, viajando junto com o viajante: “abrir o mapa numa esquina, como se o consultasse / apenas para que tome / algum sol”. Eis aí a graça da poesia: embarcar numa viagem representativa, dentro da linguagem; porém, simultaneamente, levar o símbolo material consigo – ou o mapa, ou o livro.

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Sobre Bruna Kalil

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia “POÉTIQUASE”, pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/