Velha infância


Texto: Cláudia Cruz // Arte: Elisa Gergull

A bruxa colocou no caldeirão cinco gotinhas de baunilha, sem parar de bater a massa. Ela nunca havia tentado essa receita antes, e apesar do cheirinho bom de algodão doce, a mistura não estava nada atraente aos olhos. A fumaça rosa que começou a tomar conta do recinto indicou que a poção estava pronta, então ela respirou aliviada e alongou os braços. Receitas delicadas como essa, além de arriscadas, são muito cansativas, já que não dá pra enfeitiçar a colher ou usar a batedeira sem ter resultados catastróficos.

 

Após colocar um pouco da poção em sua ampulheta mágica (que lhe indicaria a hora de voltar pra casa), Luz tomou tudo de uma só vez. O gosto a surpreendeu – não tão bom quanto o cheiro, não tão ruim quanto a aparência. A magia não demorou a fazer efeito e, mesmo antes de se olhar no espelho, Luz sabia que estava bem menor e com a pele bem mais macia. As roupas em seu corpo pareciam pertencer a outra pessoa e dificultavam seus movimentos, tanto que ela quase tropeçou na barra de suas calças ao sair da cozinha e ir para o quarto.

 

Sua fantasia de bruxa a esperava em cima da cama.. Pela primeira vez ela tinha acertado as medidas, tanto da poção, quanto da vestimenta. Ajeitou o laço de seu chapéu, colocou seus óculos, amarrou seus sapatos, pôs o colar com a ampulheta mágica no pescoço e escondeu sua varinha dentro do compartimento secreto de sua sacolinha de doces. Antes de sair, Luz fez um carinho em seu gato e disse “Até logo” aos seus fantasmas companheiros. Essa era a melhor época para rever os amigos que não conseguiram passar pro outro lado.

 

As crianças começavam a sair para a rua  em suas mais diversas fantasias e, graças à sua invenção, Luz parecia ser mais uma delas. Halloween era a única época do ano em que ela poderia dizer abertamente que era uma bruxa, ser chamada de fofa, e ainda ganhar doces por isso. A ideia para essa nova tradição surgiu em seu aniversário de 64 anos, mas apenas hoje, três anos depois, ela conseguiu pôr o plano em prática.

 

A bruxinha começou a correr de casa em casa, cumprimentando todos ao seu redor e se sentindo o máximo a cada elogio que recebia. Ela ficou tão distraída que nem percebeu que outra criança estava vindo, correndo, em sua direção. Um instante – e uma colisão – depois, as duas acabaram caindo no chão. Luz foi a primeira a se levantar, e viu que a outra criança estava chorando.

 

“Me desculpa, te machuquei muito?”, Luz disse, estendendo a mão para a criança vestida de fantasma. “Se precisar de curativo, eu tenho aqui na minha sacolinha.” Ela não tinha trazido nenhum curativo, mas se fosse necessário, tiraria sua varinha da sacola e tentaria conjurar algo rapidamente sem ninguém perceber.  

 

“Não, não, tudo bem. Eu não tô machucada”, disse a criança após conseguir se levantar, e Luz respirou aliviada. Um dia sendo criança de novo e já tinha conseguido ralar seus joelhos!

 

“Por que você estava chorando?” – Luz perguntou, e isso a surpreendeu. Ela não era de ir se metendo na vida dos outros, pelo menos não nas últimas décadas. Ao ouvir a pergunta, a garotinha olhou para trás, e foi então que a bruxinha percebeu que havia um grupo de crianças rindo dela. “Você conhece eles?”, ela disse, apontando para o grupo de mini Vingadores.

 

“Eles são da minha escola…”, a menina diz, e um suspiro depois, dispara a falar. “Eu sou nova aqui, e minha mãe conhece a mãe da Paula, a que tá vestida de Thor, então ela falou com a mãe da Paula pra falar com a Paula pra ir comigo, porque ela não queria que eu andasse por aí sozinha e nós somos da mesma turma, só que aí quando eu fui encontrar a Paula ela estava com o grupo de amigos dela, e todos de fantasia combinando, e eu não sabia que era pra ir de fantasia combinando, eu fiz minha própria fantasia, e quando eles me viram eles começaram a rir de mim e eu só saí correndo porque não queria andar com eles e como minha mãe não me deixa andar sozinha eu ia ter que voltar pra casa, e isso me deixou triste e aí não consegui controlar o choro porque eu amo o Halloween e não quero voltar pra casa, e aí esbarrei em você e a gente caiu.”

 

Luz tinha se esquecido da facilidade com a qual crianças conseguem dizer tanta coisa em um só fôlego, e começou a pensar em quão útil isso seria para conjurar certos feitiços, até que seus devaneios foram interrompidos:

 

“Você é nova aqui também? Porque eu não lembro de te ver na escola.”

 

“Não”, Luz disse, sem saber o que responder. Ela não estava esperando ter que conversar com ninguém, então nem tinha preparado detalhes falsos sobre sua vida. “Isso que dá deixar tudo meio pra cima da hora”, ela disse a si mesma. Teria que improvisar, “Eu estudo…. em outro lugar”, foi o que ela acabou dizendo – e sim, ela ficou satisfeita com a própria resposta, principalmente por ser, no fundo, verdade. Antes que mais perguntas pudessem vir, tentou mudar levemente de assunto, dizendo, “Eu gostei muito da sua fantasia.”

 

“Obrigada.”, a fantasminha respondeu, sorrindo pela primeira vez desde que tinham se conhecido.

 

“Se você quiser, pode vir pegar doces comigo, porque aí você não precisa voltar pra casa já que não vai estar sozinha.” Não era o que Luz tinha planejado para a noite, mas era o que ela sentiu ser a coisa certa a fazer, além disso, ter companhia (quase) nunca era uma má ideia.

 

“Tudo bem!” a menina disse, e, como se para selar o acordo, estendeu a mão para Luz.

 

Contentes, as duas saltitaram de mãos dadas por várias casas em busca de doces, se divertindo a cada parada. Uma senhora as chamou de “dupla dinâmica”, o que fez a fantasminha rir e cochichar “Eu nem sei direito que significa dinâmica mas acho essa palavra muito engraçada”. Em outra casa, não havia ninguém para servir os doces mas quem demorasse tempo demais era perseguido por um zumbi. “Falso”, a bruxinha pensou, mas não conseguiu controlar seus reflexos e saiu correndo do mesmo jeito, rindo, até perder o fôlego. E foi na menor casa da rua, que quase todo mundo deixava passar batido, que elas ganharam a maior barra de chocolate.

 

A bruxinha se divertiu tanto que esqueceu que não era mais criança de verdade. O tempo voa, mas não perdoa; a ampulheta em seu pescoço vibrou, e ela percebeu que o efeito da poção ia acabar a qualquer momento. Ela soltou a mão da fantasminha, disse um tchau rápido para não ser rude, e saiu correndo em direção à sua casa. Se ela fosse rápida o suficiente, talvez desse pra chegar antes da magia passar totalmente.

 

Saiu tão rápida e desesperadamente que nem percebeu que sua sacolinha de doces tinha ficado para trás, e dentro dela, sua varinha. Estava tão cansada que só teve tempo de trocar a fantasia, agora apertada, por um de seus vestidos de algodão preferidos, antes de adormecer ali mesmo, no sofá, sem ter consciência do que tinha perdido.

 

Na manhã seguinte, Luz acordou com seu gato sentado em cima da sua cara. Típico. Levantou-se devagar e alongou as costas. Ela não se sentia tão cansada assim desde as festas de sete dias no Vale dos Vampiros. Colocou a mão no bolso frontal esquerdo de seu vestido, instintivamente procurando por sua varinha, e foi então que lembrou que esta estava na sua sacolinha de doces.  

 

Prontamente, a bruxa começou a revirar possíveis locais onde a sacolinha podia estar. Minutos depois de iniciar a busca, lembrou tinha ido para casa com tanta pressa que era possível que a sacolinha tivesse ficado para trás. Ela não estava acostumada a carregar nada nas mãos quando saía – quem precisa de bolsas quando se tem bolsos mágicos em todos os seus vestidos?

 

Luz considerou suas possíveis ações:

 

  • Apesar de prático, um feitiço de chamamento não seria prudente, pois no caminho até aqui a varinha podia acabar assustando – e até machucando – alguém.  
  • Ela poderia tentar descobrir onde a fantasminha morava – mas seria esquisito dizer que algo que todos podiam jurar pertencer a uma criança pertencia, na verdade, a ela.
  • Conseguir todos os ingredientes para fazer outra poção demoraria demais. Talvez se ela dissesse ser a avó da dona da sacolinha ela conseguisse o que queria…

 

Antes que pudesse ponderar mais, as orelhas de seu gato entraram em estado de alerta, indicando presença iminente, confirmada por batidas leves na porta alguns instantes depois. Durante todos esses anos morando ali, Luz nunca tinha recebido visitantes surpresa, e seu radar mágico estava silencioso como um pum fedorento. Será que Adalberto tinha ficado preso entre os planos novamente e precisava da sua ajuda?

 

Do outro lado da porta, para sua surpresa, estavam uma menina e seu cachorro. Nas mãos dela, a sua sacolinha! Seria essa a fantasminha da noite anterior?

 

“Ah! Você achou!”, Luz disse sem conseguir se conter, estendendendo as mãos para receber seus pertences.

 

“Mas.. É você a bruxinha de ontem?”, perguntou a menina, a investigando com o olhar da cabeça aos pés. A bruxa ficou em dúvida sobre qual caminho seguir nessa encruzilhada. Ela diria a verdade? Ou tentaria inventar algo? Luz era péssima em inventar histórias, e Associação provavelmente não ia encher tanto o saco dela se ela contasse a verdade para uma criança.

 

A garota pensava de forma ágil, e então, antes que a bruxa tomasse sua decisão, disse, “É claro que você é”, entregando a sacolinha – com todos os doces intactos – para a bruxa. “O meu nome é Júlia, e o seu?”

 

“O meu nome é Luz”, ela respondeu, sem saber o que lhe espantava mais: se era o fato de que passou horas se divertindo com a menina ontem e as duas ainda nem sabiam o nome uma da outra; ou o fato de que a menina tinha facilmente chegado a conclusão definitiva de que era ela a mesma pessoa da noite anterior. “Mas peralá, como você chegou até aqui?”, a bruxa perguntou, e teve medo da resposta.

 

“Meu cachorro me trouxe até aqui. Ele é ótimo rastreador.” Ah sim, Luz pensou. Não era a primeira vez que um cachorro a dedurava – eles pareciam ter algum tipo de mágica que ela ainda não tinha tido a chance de estudar. “E eu sei que é você por causa do seu colar de ampulheta e seus óculos – principalmente os óculos.” Luz realmente não era nenhuma rainha dos disfarces. Um adulto provavelmente encontraria desculpas, arrumaria uma explicação mais lógica, mas crianças, com sua imaginação fértil, muitas vezes encontram verdades negligenciadas.

 

“Muito obrigada”, disse a bruxa, agradecendo não apenas pelo que foi devolvido, mas também por tudo que a menininha – Júlia – a tinha permitido viver novamente. Um chá com bolinhos depois, elas oficialmente se tornaram melhores amigas para sempre (palavras de Júlia), pois, apesar da diferença de idade, juntas elas eram uma dupla realmente dinâmica.

 

Compartilhe: