Universos insulares


Texto: Odhara Caroline // Arte: Dora Leroy

Em 1623, o poeta anglicano John Donne escreveu: “No man is an island, / entire of itself, / Every man is a piece of the continent, / a part of the main”. Soa tranquilizante a ideia de ser parte de um todo, pecinha de um quebra-cabeça de 7 bilhões de peças. Mas ainda que espiritualmente isso possa até fazer sentido (particularmente, é no que eu acredito), não há como fugir do fato de que, no que se trata das nossas vidas materiais aqui no planeta nosso de cada dia, nós estamos irremediavelmente sozinhos.

Na faculdade, eu tive um professor tão seguro de si que ele nos ensinava teoria da comunicação, no singular. No caso, sua própria teoria. Na frente de vários bixos um tanto quanto começando a desconfiar do egocentrismo que ronda a tal da academia, os seus termos acabavam virando piada interna (afinal, será que algum de nós ainda lembra o que é metapórico?) e resumíamos tudo, sempre, com uma frase: como C. já dizia, não existe comunicação.

Mas ele sempre esteve certo, não é?

Nós passamos a vida tentando construir pontes com chicletes, torcendo pra que elas se estiquem o suficiente quando a vida, inevitavelmente, nos levar pra outros cantos. Às vezes nós andamos toda a extensão da ponte, nos desgastando por quem não faz questão nem de nos receber na porta. Quando a gente dá sorte, encontra alguém que se dispõe a nos encontrar no meio do caminho.

Ninguém nunca vai conseguir entrar na nossa ilha. E vice e versa.

Mas a gente tenta descrever a nossa fauna e flora, tenta achar a palavra certa pro gosto da fruta que dá em profusão na nossa terra, mesmo sabendo que outros lábios nunca poderão prová-la. A gente grita e faz malabarismos, usa de todos os truques para sermos entendidos. Às vezes dá certo. Às vezes não.

Quando você fecha os olhos, você volta pra sua ilha. Lá, por mais que você grite, ninguém vai escutar. Tem tanta gente que luta contra nosso aspecto insular, que não consegue admitir. Se for seu caso, saiba que eu não quero te ferir quando afirmo que, mais do que estar, você é sozinho. É só você ali, cuidando de quem você é. Vai ser assim a vida inteira.

Tenta não considerar isso uma maldição, porque, olha, não é. É só a condição humana, só uma daquelas coisas que, quando a gente aceita, consegue perceber a sua bondade. “Nenhum homem, proclamava Donne, é uma ilha, e ele estava errado”, escreve Neil Gaiman pela voz de Shadow em Deuses Americanos. “Se nós não fossemos ilhas, estaríamos perdidos, afogados nas tragédias uns dos outros”. Ser ilha também é método de sobrevivência. É pro nosso território que a gente pode fugir, é o nosso território que a gente pode defender. E, principalmente, é dele que a gente tem que cuidar.

Ensinam a gente a passar a vida lutando contra a solidão, quando ela, assim como a morte, precisa ser encarada de olhos e braços bem abertos. Porque de nenhuma das duas a gente vai conseguir fugir.

“Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós”, escreveu Aldous Huxley, em As Portas da Percepção. “Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência; debalde. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias — tudo isso são coisas privadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares”.

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Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco.
Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).