Uma via de mão dupla


Quando lemos entrevistas com escritores, geralmente eles comentam sobre como escrever é um trabalho solitário. De fato, acho que a imagem que a maioria das pessoas tem sobre nós, escritores – bichos míticos semelhantes a centauros, em sua sabedoria e raridade – é a de um cara barbudo ou uma mulher desarrumada, com um cigarro numa mão e uma xícara de café na outra, encarando a máquina de escrever (muito mais bucólico, claro), possivelmente enfurnado(a) em sua cabana perdida num lugar qualquer. E por mais que essa imagem já tenha se repetido na vida real algumas vezes (até mesmo na minha, salvo o cigarro) a verdade é que não é bem por aí. Escrever é, sim, um trabalho em muitas partes solitário; a gente precisa de concentração, silêncio, imersão completa. Não dá pra escrever enquanto rola uma festa no mesmo cômodo. Mas a verdade, a verdade bruta, é que nós, escritores, nunca estamos sozinhos.

Sei o que você está pensando agora. Provavelmente me imaginou à la Chico Xavier, ouvindo algum espírito do meu lado. Bom, não (eu acho). Não é a isso que me refiro. Me refiro à presença constante, ainda que apenas delineada, de vocês, leitores.

Sabe, um livro não é um reflexo de um autor falando sozinho. Um livro se faz por inteiro somente quando está nas mãos de outra pessoa que receba sua mensagem, estabelecendo, assim, um laço intransponível de comunicação. É uma via de mão dupla: o autor fala e o leitor escuta, e o que o leitor falar de volta – ainda que o autor, não sendo onisciente na vida real, não possa escutar – também é recebido por quem escreve. Um livro nunca é lido da mesma maneira duas vezes, e jamais tem o mesmo impacto sobre duas pessoas diferentes. Eu posso emprestar para alguém o livro da minha vida, e essa pessoa odiá-lo. Eu posso detestar um livro considerado clássico. Como qualquer conversa, uma leitura é estabelecida individualmente, e afeta cada pessoa tal qual sua personalidade e experiência. São caminhos únicos, impossíveis de se dividir com outra pessoa. Aquele livro, aquele que você leu, ele é única e exclusivamente seu.

E exatamente por isso, nós, autores, nunca estamos sós.

Imagine vocês passar todos os minutos da sua vida tentando criar algo perfeito. Para um autor, uma imitação da vida não é o suficiente; você quer que o livro seja algo sólido, estruturado, e que, portanto, tenha uma vida própria fora de você. A única maneira de conseguir isso é construindo algo tão coerente e tão real que todas as pessoas do mundo possam reagir àquilo – se positiva ou negativamente, você não pode saber. Mas espera que seja de um jeito bom, e por isso tenta. Você nunca acha que está bom o suficiente, porque nunca acha que vai ser bom o bastante para outra pessoa. Você não se permite o imperfeito porque o seu objetivo final – o leitor – não merece nada menos que o perfeito. Você precisa, você tem que realizar o seu melhor a cada virada de página, porque isso é o que te separa do comum. E você não quer ser comum. Você quer ser um centauro, da tribo dos que bebem café e franzem o cenho diante da máquina de escrever, o papel em branco esperando pela sua genialidade.

E este ciclo nunca. tem. fim.

Por vezes, quando escrevo, sinto que estou num universo paralelo. Isso é bom. Se eu viajo, quem lê vai viajar também. Se eu me perco, a tendência é que eles se percam. O que eu sinto muda tudo sobre o que eu escrevo. Invariavelmente, me obrigo a parar quando não estou no clima, ou a seguir quando está me matando, porque aquilo ali não é pra mim – é pra vocês. Se eu não escrever, não botar pra fora o que só sai pelas minhas palavras, então vocês não poderão me ouvir. E sem esse canal aberto nas páginas dos meus livros eu não sou ninguém.

Pois é. O trabalho em si pode ser dos mais solitários. Mas a missão, meus queridos… esta jamais será.

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