Uma saga de dificuldade e reconhecimento com Os Meninos da Rua Paulo


Qual a semelhança entre uma mulher de 25 anos do Rio de Janeiro no século XIX e um grupo de meninos de 14 de Budapeste no fim do século XIX? A falta de uma resposta clara para essa pergunta talvez tenha uma relação forte com o fato de eu ter levado meses para concluir a tarefa de ler Os Meninos da Rua Paulo, apesar de ser um livro muito bom e não ser uma leitura densa ou emperrada.

Eu não acredito que identificação completa seja uma necessidade para se conectar com uma história. Muito pelo contrário, uma função muito importante das histórias é justamente desenvolver a empatia, nos permitir nos colocar no lugar de personas com quem temos muito pouco ou nada a ver, e isso nunca foi um problema para mim. Mas e quando essa falta de identificação tem relação com uma divergência de valores?

O livro Os Meninos da Rua Paulo, um clássico da literatura juvenil mundial, conta a história de um grupo de meninos moradores da cidade de Budapeste que se encontram naquela fase ambígua entre fim da infância e começo da adolescência no ano de 1889.

 

Inconscientemente imersos na tarefa confusa de decifrar e se entender no mundo, os meninos criam toda uma sociedade própria com regras, estrutura e hierarquia espelhados do mundo adulto, mas da qual adultos simplesmente não fazem parte. Girando em torno do grund, o terreno baldio que constitui o principal espaço em que essa sociedade ganha concretude, a brincadeira geral dos meninos é se imaginar membros de um mundo que ainda não os reconheceu membros, e moldar pouco a pouco a pessoa que—muito em breve—eles virão a ser dentro desse mundo.

Em meio a esse processo de autodescoberta, crescimento e construção de suas personalidades, os meninos da Rua Paulo veem seus domínios territoriais ameaçados por um grupo rival de meninos, o que dá o pontapé inicial para toda uma guerra que serve quase exclusivamente como plano de fundo para a exposição de valores como honra, coragem, integridade e solidariedade.

Talvez meu problema de leitura tenha vindo justamente da lógica militar que permeia todo o livro, e que sempre me causou algum nível de resistência e aflição. Só aos poucos eu fui perceber que meu problema não era com o livro em si, e sim com a lógica de violência que está tão integrada na própria estrutura da nossa sociedade e se reproduz de geração em geração de forma tão natural que não nos chama nenhuma atenção especial. Apesar dessa questão pessoal, o livro foi capaz de me levar além dessa divergência de princípios e entregar a mensagem a que ele se propõe.

Como tudo na vida, existe uma diferença gritante entre ler Os Meninos da Rua Paulo na infância/adolescência e ler esse livro na vida adulta. O clima que perpassa o livro como um todo para nós que já estamos do lado de cá da ladeira é o de nostalgia. Nostalgia por uma fase da vida, mas também nostalgia por uma época social romantizada na qual tudo parecia objetivamente mais simples—antes de duas grandes guerras e antes que os avanços tecnológicos nos levassem a um tempo de relativização da ética e da cortesia com o Outro. É inevitável—ou foi inevitável pelo menos para mim—ser contagiada por essa saudade de um período em que tudo era brincadeira, e a brincadeira era a coisa mais séria que poderia existir.

Apesar do mais de um século que nos separam daquele grupo de garotos vivendo em seu mundo imaginário, existem sentimentos que nos ligam e lições que podem ser tiradas independentemente da fase da vida. O senso de certo e errado, de justiça, o altruísmo de Boka, o presidente do grupo, a coragem e a integridade de Nemecsek e, principalmente, a amizade que existe entre os dois; o respeito e a ética entre aqueles que são, no contexto atual, o adversário; a humildade para assumir os erros e se desculpar de Géreb; entre vários outros, são ensinamentos relativamente simples, mas que precisam ser recordados com alguma frequência durante a vida.

É justamente essa simplicidade e essa pureza que permeiam Os Meninos da Rua Paulo que fazem com que a obra tenha a expressão que tem mesmo mais de 110 anos depois da sua publicação inicial. Os Meninos da Rua Paulo é um livro igualmente válido para crianças em fase de formação, e adultos que precisam se reconectar com as raízes para relembrarem algumas coisas que realmente importam.

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Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.