Uma reflexão em conto


Texto: Roberta Cintra // Arte: Carol Porto

“O que é uma boa personagem feminina?” perguntou-se, em uma cena que certamente seria um clichê se não fosse de verdade. Temeu que algum estranho passasse e visse nela o ideal feminino de inteligência e reflexão; a bela jovem encarando o horizonte como se tivesse em sua cabeça todas as perguntas do mundo.

Já não era tão jovem, e acreditava que a beleza estava em todos.

Porém, realmente sentia o momento. Desviou o olhar da beirada do lago — onde o sol refletia uma última vez antes de se pôr — ao notar que encarava uma pessoa. Sempre acabava nessas situações, olhando tanto para um mesmo ponto que quando dava por si o cenário todo mudara sem que ela percebesse, e o que antes era um ponto vazio agora tinha alguma pessoa olhando-a de forma inquisitiva. Não tinha culpa que sua mente tivesse asas enquanto o seu corpo permanecia completamente sujeito à gravidade.

Gostava de personagens sinceras, femininas ou masculinas. Contanto, não costumava ver esse mesmo debate sobre as tais personagens masculinas.

Sua favorita talvez fosse Ifemelu, de Americanah, porque era retratada como… humana. Fraca, forte, corajosa, sensível, irônica; completamente humana. Mas, ao ver as outras, não entendia o conceito que as separavam em boas personagens femininas ou ruins.

Dessa vez, focando em seu caderno e fingindo escrever algo enquanto apenas rabiscava linhas desconexas que virariam alguma arte para postar no instagram depois sob o título de “linhas de pensamento”, pensou no que a definiria como boa personagem feminina.

Como personagem, sabia muito bem. Precisava ser verossímil, ter motivos que explicassem suas ações mesmo que não as justificassem, um passado e um futuro que guiavam o seu presente. Entre outras coisas.

Agora, como personagem feminina… Ela própria seria uma “boa”?

Toda personagem feminina é uma boa personagem feminina. Quanto maior a diversidade de “personagens femininas”, melhor. Nada faz uma mais feminina que a outra. O que se deve saber é se ela é uma boa personagem.

E isso sim ela não sabia ao certo.

 

No fim, tudo o que importa é ser sincero.

 

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Sobre Roberta Cintra

Roberta faz Letras porque sempre admirou a profissão de escritor e a faculdade ainda não conseguiu fazê-la desistir de escrever! Posta suas histórias online e está criando coragem para ir atrás de publicar uma das suas loucuras (aka revisando loucamente). Uma potterhead e entusiasta, no geral. DFTBA.