Uma historinha sobre espelhos


Todo mundo concorda que nós somos meio cegos quando se trata de enxergar como realmente somos, né? Deixando de lado todas as teorias de matrix e etc. Eu sei que, limitados a cinco sentidos e um monte de preconceitos, pode ser que tudo isso que chamamos de mundo não passe de uma ilusão e blá blá blá. Mas vamos nos limitar a coisinhas mais mundanas, como quem a gente acha que é.
Bom, eu também não acho que isso seja real. Eu acho que nós só conseguimos nos ver por meio de espelhos.
Mas você sabe como as casas de espelhos funcionam, né?
Quando você era criança, tava tudo bem. Você se via pelo espelho que os seus pais fizeram pra você. Sabe aquela história de “pelo menos a minha mãe me acha bonita”? Então. Seus pais fazem um espelho que mostra que você é o amor da vida deles, linda, carinhosa, inteligente, educada, gentil (não importa muito se você derrubou todas as panelas da casa, construiu um forte com os livros da estante, quebrou o vaso que eles ganharam de casamento daquela tia-avó ou desenhou um peixe na parede usando o batom preferido da sua mãe de giz de cera).
Só que depois de um tempo a gente passa a entender que esse é o espelho que os nossos pais fizeram pra gente – e para de acreditar no que vê nele.
Aí você começa a fazer suposições. Afinal de contas, talvez você não seja tão inteligente assim. Você passa a reparar naquela marca de nascença no seu pescoço que mais parece uma barata e que você tem certeza que é a primeira coisa em que as pessoas reparam quando te conhecem. O seu espelho vai crescendo e você começa a aceitar os pedacinhos de espelhos que os outros oferecem pra você.
Como o daquela garotinha que, na terceira série, disse que tinha quebrado todos os seus lápis de cor porque você era gorda e fazia com que ela sentisse nojo.
Acho que a pior época da minha vida foi quando me deram um espelho bem ruim e eu comecei a olhar pra mim mesma só por ele. Esse espelho era cruel, de uma pessoa que foi cruel pra mim (Eu poderia dizer que aquela pessoa era cruel, mas isso também não seria verdade, né? As pessoas são maiores do que o que elas fazem com a gente). Ele tinha dó de mim e fazia com que eu me sentisse uma pessoa miserável, digna de pena, repulsiva. Eu chorava, não queria acreditar. Mas eu me agarrava àquele espelho como se ele fosse toda a verdade do mundo. Aquele espelho era tudo o que eu via.
Demorou um tempo até eu entender que aquela imagem que eu estava vendo era resultado de um espelho todo distorcido de crueldade. Que eu não precisava aceitar aquilo. Eu coloquei aquele espelho de lado e comecei a prestar atenção no espelho que eu construí pra mim mesma ao longo de todos esses anos. Por que deixar fazer parte dele reflexos de pessoas que claramente não queriam o meu bem, pelo motivo que fosse? Por que dar espaço pra pedacinhos de vidro mentirosos? Por que acreditar nas coisas que às vezes o seu próprio cérebro inventa pra te colocar pra baixo?
Não é fácil, já vou te avisar. A gente tá tão acostumada a olhar praquelas imagens que simplesmente assume que elas sejam verdadeiras. Não são. Demora e dói. Você vai sangrar um bocado. Vai ficar sem entender porque começou a acreditar em todo aquele lixo, pra começo de conversa.
Mas entenda que você tem poder sobre esse espelho que você usa pra se enxergar. Construa um espelho lindo. Ame o que você vê nele. Use só o que as pessoas que te amam dizem. Entenda que defeitos fazem parte dele, sim. Mas eles não devem te machucar a cada vez que você os vê – pelo contrário, pode ser que, olhando pra essas coisas que você não acha assim tão legais em si mesma, você acabe encontrando força pra mudar. Pendure um espelho na parede, olhe todos os dias de manhã o seu reflexo e não dê a ninguém o poder de substituí-lo. Você é muito maior do que os olhos dos outros conseguem ver.
Compartilhe:

rodrigues.odhara@gmail.com'

Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco.
Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).