Uma história sobre o gelo


Com um pé no chão, eu e minha irmã inclinávamos o tronco para frente, tentando deixá-lo paralelo ao chão, abríamos os braços e esticávamos a outra perna para trás o mais alto possível. Essa brincadeira de tentar fazer a postura de avião era nosso costume durante os replays e intervalos de patinação artística do gelo, lá no início dos anos 2000. Os tempos eram outros, e o esporte também: o sistema de pontuação era o 6.0, as espirais, que tentávamos emular com nossos aviõezinhos fajutos, eram elementos obrigatórios na categoria feminina, e os saltos quádruplos existiam, mas não em profusão como atualmente.

Desde essa época acompanhei patinação, com variados níveis de interesse. No início, só assistia quando passava na televisão, com os comentaristas da ESPN que quase não paravam de falar e acabavam mais fazendo digressões do que explicando o conteúdo técnico. Depois, minha irmã se interessou mais pelo esporte e passou a acompanhar as notícias pela internet. Foi descoberto o fandom de patinação, uma comunidade variada que se reúne em diversas redes sociais e fóruns para conversar sobre o assunto. Os fãs se dividem em inúmeros tipos: há aqueles que só querem falar sobre técnica, os que são muito fãs de um patinador só e ficam falando mal dos patinadores que odeiam, alguns acompanham o esporte há tempos e são uma enciclopédia humana de competições, há também os que sempre viajam para poder ver o esporte ao vivo e aqueles que sabem tudo sobre a vida dos atletas fora do gelo, torcem por casais e escrevem fanfiction. Há quem revele seu nome verdadeiro e use foto própria, mas também são muitos os que só usam apelidos e colocam imagens dos patinadores favoritos como ícone.

É curioso como é fácil acompanhar por tanto tempo um esporte sem entender muito da parte técnica dele. Só fui compreender as diferenças entre os saltos nesse ano, e ainda tenho dificuldade para diferenciá-los durante as apresentações. A categoria de dança é para mim a mais bonita de assistir, mas não consigo ver com clareza o que distingue tecnicamente as duplas. Ao mesmo tempo, às vezes eu me impressiono com o quão rápido a gente é capaz de aprender sobre os patinadores: suas posições e programas nos últimos campeonatos, os saltos que eles conseguem fazer e as suas narrativas pessoais. Eu perdi um pouco do interesse no esporte depois das Olimpíadas de Sochi, em 2014, e voltei no início desse ano, em um nível de fanatismo completamente inesperado por mim – mas que talvez tenha como motivo o aumento do fandom de patinação por causa da popularidade do anime Yuri!!! On Ice, que, não vou negar, foi também uma das razões para eu voltar a acompanhar o esporte.

Ser fã brasileira de um esporte de inverno tem suas desvantagens. Em primeiro lugar, não é tão fácil matar a sua curiosidade de saber se por acaso você não é um talento inato da patinação, visto que os rinques são escassos e caros. Eu já sanei essa dúvida: entrei em uma pista de gelo uma vez na vida e dizer que patinei de fato seria uma hipérbole – andei de patins de um lado para o outro, segurando nas bordas. Mesmo assim consegui cair uma vez. Bom, não é como se eu já não soubesse que minha coordenação motora é péssima… Além disso, assistir a uma competição ao vivo requer o planejamento e o dinheiro de uma viagem para outro continente. Confesso que fico com um pouco de inveja quando vejo que tem gente que está a apenas uma passagem de trem de competições, ou que mora em um dos países que todo ano é sede de um Grand Prix. Apesar disso, ainda temos um pouco de sorte: temos uma atleta brasileira na ativa para quem podemos torcer, Isadora Williams, os canais esportivos de televisão vez ou outra passam as competições maiores, e já foram feitos shows de patinação com grandes atletas do esporte em São Paulo.

Às vezes eu me pergunto por que gosto tanto de patinação. É um esporte quase inerentemente brega, com excesso de brilho nas roupas, coreografias muitas vezes estranhas e escolhas musicais normalmente clichês (um dos passatempos dos fãs fora da temporada, na época em que os patinadores anunciam seus programas novos, é reclamar da quantidade de warhorses – aquelas músicas batidas que são usadas em milhares de programas: Carmen, qualquer versão de Romeu e Julieta, O lago dos cisnes, O fantasma da ópera, a lista é longa). Ter seus patinadores favoritos é também uma opção por sofrer: eles vão cair, podem se lesionar e ficar fora de competições, vão fazer escolhas estranhas nas quais você não confia. Mas a felicidade que a gente sente quando algum patinador faz uma performance surpreendente, quando alguém tem um programa diferente e com elementos criativos,  e principalmente quando tudo, técnica, coreografia, música e performance se encaixam enfim faz tudo valer a pena.

A temporada que começou nesse segundo semestre é olímpica. O trabalho da maior parte dos atletas de elite será feito de olho em Pyeongchang – seja com as expectativas de uma medalha ou esperando “apenas” se classificar e fazer sua melhor performance. Acompanhar a temporada significa sofrer por aqueles que não vão conseguir participar das Olimpíadas, mas também é entrar no maravilhoso terreno das especulações e apostas com outros fãs sobre o que irá acontecer e, quando os eventos chegarem, acompanhar o esporte com milhares de pessoas que não o veem com frequência. Assistir patinação sem companhia, afinal, não teria nem metade da graça.

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Sobre Marília Barros

Marília é paulistana e estuda Letras. Gosta de bibliotecas, de animações e de coelhos. Não é a preguiça da foto, mas bem que gostaria de ser.