Uma diferente concepção de independência


Ela poderia ter escolhido diferentes rumos daquele que seguiu. Mesmo assim, contrariando algumas vontades, ela escolheu permanecer ao lado dele por toda uma vida e nunca, jamais se desvencilhar do caminho imprevisível. Alguns diriam “cegueira”, outros chamariam “lealdade”, mas o verdadeiro substantivo que define a situação é “amor”. Um sentimento que a fez interpretar o papel de esposa tão a fundo que, depois de um tempo, não era mais possível distinguir entre personagem e atriz.
No tempo deles, a vida era diferente. Talvez por isso eu não compreenda tantas sagas pelas quais eles passaram juntos, principalmente a maneira dela de se portar. Todo amor dói. Todo amor é uma disputa de vontades. Todo amor é uma luta. Todo amor é uma tentativa de compreender. Todo amor é derrota. Mas quantas vezes ela sofreu? Quantas vezes ela chorou e escreveu o que se passava no seu coração? E quantas tantas vezes mais ela não desistiu?
Sempre ali, sempre presente, sempre disponível. Para ele.
Essa devoção era recíproca, talvez não de uma maneira justa, mas era. Tanto que rendeu frutos. Juntos, eles construíram o próprio império que os sustentou até o fim de um deles. Tiveram filhos e esses filhos tiveram mais outros tantos filhos. Viveram em uma casa cheia de barulho e de muito sol. Fizeram festa. Fizeram vida da maneira que achavam certo: crescendo juntos.
Essa alegria durou décadas. Não foi um percurso perfeito, toda trajetória é permeada de dificuldades e momentos tristes, mesmo assim aqui descrevemos um sentimento frutífero. Tudo tem fim e, com essa história, não haveria de ser exceção. Acabou. Os momentos que precederam o desfecho foram muito sofridos nas noites varadas no hospital. Câncer é uma doença teimosa que se não for combatida com dupla teimosia de volta, é batalha perdida. E, de fato, foi.
Houve alívio de ambas as partes porque ser humano nenhum aguenta viver só de tristeza. Seja de ver a dor, seja de sentir a dor, uma hora o organismo não computa mais os momentos de judiação. Porém o pesar se arrasta. Machuca muito mais do que qualquer outra sensação que a assolou no momento da perda. Foram tantos anos com a mesma companhia, que é como se um pedaço dela tivesse ido embora junto com ele.
Agora surgiu um novo momento. A rotina não é mais a mesma. É vazia e pode ser preenchida com todas as possibilidades para as quais ela se fechou um dia. Ela já está em uma fase avançada da vida, em que se questiona quantos anos mais ainda tem. Eu digo que ela viverá mais uma bela década, no mínimo. Mas acho que minhas palavras não conseguem encontrar toda a reflexão que permeia sua mente nesses últimos meses.
Agora ela é livre. Completamente. Seus filhos, mais que criados. Seus netos, grandes o suficiente para começarem a caminhar com as próprias pernas. Quando eu pensei em escrever um texto sobre independência, imaginei que o clássico “20 e poucos anos passando por poucas e boas com o bolso semi vazio” seria conhecido por muitos da minha geração. Ou não apenas da minha, mas por todas as pessoas que, em algum momento, pagaram a primeira conta e sentiram a sensação de “agora é comigo”.
Mas, no auge da minha imaturidade, nunca pensei que a independência poderia alcançar o auge nos tempos sóbrios da vida. Ainda mais de uma maneira tão amarga. A independência não necessariamente vem acompanhada de liberdade, também pode ser oriunda do vazio. Deve ser misto ser solto na mente, mas preso no coração. Abre as asas e voa. Vai até a Rússia, como você realmente foi. Seja e viva a parte de você que nunca foi nem viveu. Nós caminhamos juntas e podemos aprender com as nossas diferentes noções de independência. Juntas.

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