Um terço de fuga


Texto: Felipe Castro // Foto: Luísa Granato

No ano em que completei dezesseis anos eu fugi de moto com um amigo pra Argentina. Foi uma fuga de última hora e os detalhes foram decididos no lugar onde eu lavava copos naquelas férias da escola. Alguns meses antes eu havia assistido Diários de Motocicleta, então a coisa toda ainda estava arrancando os papéis de parede da minha cabeça. Eu conheci Jose através de clientes do bar, que também eram meus amigos, mas nenhum deles fumava o mesmo cigarro que eu.

Eu precisava fugir de muita coisa. Precisava fugir do meu relacionamento que tinha acabado meses antes, precisava fugir da minha família, dos meus traumas, e até de coisas que eu nem sabia. Pra ser sincero, não foi difícil me convencer. Eu batia cinzas numa lata de coca cola vazia e ouvia atentamente, necesito llevar algunas cosas a mi hermano, allá en Argentina. Voy en coche, tengo que devolver el coche también. Hay una moto, eu topo. Jose tragou o cigarro até a ponta amarela ficar vermelha e os lados da boca se transformarem num sorriso.

Avisei pro dono do bar que não iria no dia seguinte. Nem no mês. Peguei o pagamento da noite e não consegui pregar o olho quando cheguei na casa dos meus primos. A mentira, pros meus pais, tios, primos, amigos era de que eu queria visitar umas universidades pelo interior do estado. Saímos dois dias depois, logo cedo, de carro. A viagem foi tranquila, passamos pela fronteira sem problemas.

Não foi nenhum salto de lógica quando a tal da moto era pra uma viagem pro sul de Buenos Aires. Entregamos o carro (velho), a papelada de três quilos e seiscentos gramas. Não passamos 24h na cidade. Partimos, mais uma vez, na madrugada. Passamos em brechós, na casa do irmão dele, na casa de amigos, da namorada. Estávamos munidos de um par de óculos de natação, casacos e luvas velhos, muito cigarro, mudas de roupa. Partimos pra Tandil, e para Bahia Blanca. E depois a intenção era descer a Terra do Fogo (no inverno).

Aquela não era uma aventura programada, uma simulação da viagem de Che e Granado, ou uma coisa pra contar quando eu voltasse pra casa (até porque, pra ser sincero, eu não planejava exatamente voltar). Eu estava fugindo de muita coisa – até de uma conta pendurada na padaria (que eventualmente paguei).

Quase morremos duas vezes. Paramos num hotel na estrada do qual tivemos de sair sem pagar porque os donos estavam tentando roubar nossas coisas. Não paramos por um dia inteiro. Das paradas pra comer ou pra quebrar o gelo de algumas das partes da moto ganhei uma cicatriz no dedo. E outra tentando acender uma fogueira pra não morrermos congelados.

Jose também estava fugindo. Fugindo de uma doença recém diagnosticada. Eu, dos meus próprios fantasmas .Não importava quanto andávamos e quanto mais nos distanciávamos, ou se ¿es que conseguimos subir a Santiago y luego, La Paz?

Não chegamos nem a 1/3 do nosso destino. A moto quebrou. O tanque congelou e rachou. Vendemos pro ferro velho, voltamos de ônibus. Anos depois o câncer alcançou Jose. Pra todos os espelhos que eu olhava, inclusive os retrovisores, eu não me enxergava, mas enxergava todas as coisas que me perseguiram até aquele trecho da estrada. Pra além da viagem, de aprender a beber, a acender fogueira, a descobrir pra onde fica o noroeste e aprender na prática que tem umas frutinhas que dão muita dor de barriga, eu aprendi que tudo do que eu fugia estava dentro de mim.

Isso não trouxe nenhuma resolução maravilhosa. Eu não meditei debaixo de uma árvore congelada e atingi a iluminação. O máximo que eu consegui, além de duas cicatrizes, gripe e uma história pra esconder durante muitos anos, foi a percepção da mais mundana das obviedades: não dá pra fugir, nem se esconder de si mesmo. Nossos espectros moram nos nossos reflexos – e apesar de ainda carregar muita coisa mal resolvida, foi ali que eu decidi deixar alguns desses pesos pra trás.

Como o espelho esquerdo da moto que eu deixei na beira da estrada (e talvez ele ainda esteja lá).

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Sobre Felipe F. Castro

Sergipano sem sotaque que adoraria não derreter de calor. Podcaster no Locadora do Trash e contribuidor da Revista Pólen, MC Mentoria e Horror-Writers.com. Graduando em Relações Internacionais. Viciado em fazer playlists, assistir filmes de terror, esmagar o próprio cachorro e em realismo mágico.

  • Jade Lacerda

    Que texto!
    É tão lindo e triste ao mesmo tempo.
    As vezes a gente pensa que fugir das nossas paredes mudam quem somos, mas não adianta nada se levarmos nossos pesos junto.