Um prato meio cheio


Texto: Larissa Siriani

Eu nunca tive uma relação saudável com a comida. Desde que me lembro por gente, comer é um desespero ou uma salvação. O pior ou o melhor momento do dia. Oito ou oitenta.

Quando eu era pequena, me recusava a comer. Trancava a boca e negava tudo que não fosse leite ou danoninho. Não gostava do sabor dos alimentos, da textura. Refeições eram feitas a muito custo, sempre sob a ameaça do chinelo da minha mãe. Era tão magrinha que parecia que ia quebrar.

Não sei em que momento eu deixei de ser magrinha e de não comer nada para ser gordinha e comer demais. Em algum momento no meio do caminho, descobri coisas que eu gostava — quase sempre, coisas não muito saudáveis — e passei a ganhar peso. Era pra ser um alívio, mas se tornou um problema: eu não parava de engordar. Gostava de comer. Sentia fome. Comia muito. Estava roliça.

Durante a minha adolescência, oscilei entre o comer demais e o não comer nada. Ser gorda aos 3 anos é bonitinho, mas ser gorda aos 13 é desesperador. Encaixei dietas malucas e horas de jejum forçado no meu dia-a-dia, alternados com horas de comilança ininterrupta que sempre se transformavam em culpa. Passei anos me forçando a sentir fome, me matando de comer e me odiando por isso. O prato estava sempre cheio demais até estar vazio demais.

Agora, na vida adulta, eu olho para trás e vejo que essa vida de extremos não era exatamente minha culpa. Nós crescemos em um mundo onde a relação com a comida não é saudável por natureza — especialmente se você for mulher. Crescemos aprendendo a sentir culpa, a sentir nojo, a achar bonito passar vontade. É preciso comer menos, pesar menos, ser menos. As revistas nos dizem que o saudável é comer semente disso, a internet nos mostra a dieta daquilo, as amigas nos passam aquele remédio maravilhoso pra secar a barriga. Tem gente que chama de saúde; eu prefiro chamar de obsessão.

Passei anos lutando contra meus distúrbios alimentares. Ainda não sei se sou uma pessoa saudável; a compulsão ainda está aqui, e a culpa também. Pra onde quer que eu olhe, tem gente tentando me dizer o que fazer para ser diferente, ditando as regras da saúde para o corpo alheio. Mas já tento encarar de uma forma diferente: o prato nunca está cheio ou vazio demais. Ele está exatamente como deveria estar, e ninguém tem nada a ver com isso.

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  • Klerianne Ribeiro

    É somente lendo depoimentos de outros que a gente sabe que não acontece só com a gente.
    O pior da relação com a comida é que não é apenas um problema diário, afinal, se faz pelo menos 3x refeições ao dia. Eu tento equilibrar situação, organismo e feels, porque, por alguma noção mto bizarra de familiares, ainda me fazem sentir culpada ao extremo por nadinha. Que eu sei que é nadinha, mas a culpa é old friend que já aparece por aparecer mesmo. Eu gostaria mto de ter um organismo que pudesse comer a hora que quisesse, não a hora que demandasse, e por mtos anos odiei – e em crises de fome fora de hora, ainda odeio – ser assim. Não posso passar da hora de comer. Mantenho os hábitos pra equilibrar. E ainda assim, tem gente que se acha no direito de intervir, de apontar, de machucar, mais do que toda a porra louca da situação em si já faz. E quando alguém, até mesmo por bondade, respeita esse aspecto, até assim eu sofro, porque é tocar numa ferida antiga. Além claro, de todo o espanto, porque já acostumada em levar a pior. O mesmo acontece quando me dizem que estou magra e/ou emagreci um pouco. Não quero saber. Não quero que pessoas falem. Não quero me sentir mal constantemente.
    Autoaceitação é um processo longo, devagar e “desestruturante”. Mas necessário. E como necessário.