Um panorama do surrealismo mexicano pela ótica feminina


Frida Kahlo (06 de julho de 1907, Coyoacán, México – 13 de julho de 1954, Coyoacán, México) marcou sua história com a arte. As 143 telas pintadas por ela renderam comentários polêmicos pela ousadia do trabalho, o rótulo de surrealista – que ela negou por muito tempo – e inspiração a diversos artistas. E isso perdura até a atualidade. O Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo/SP, recebe a exposição “Frida Kahlo – conexões entre mulheres surrealistas mexicanas”, um amálgama de diversas mulheres, em sua maioria nascidas ou radicadas no México, que criaram obras tão dignas de nota quanto às do ícone mexicano. De toda produção de Kahlo, o público pode conferir 20 telas e 13 obras sobre papel (nove desenhos, duas colagens e duas litografias). A pesquisadora Teresa Arcq assume a curadoria, que reúne, no total, cerca de 100 obras de 16 artistas distintas, dentre as quais se destacam Maria Izquierdo, Rosa Rolanda e Remedios Varo.

Arcq fala com muita paixão sobre seu encanto com as obras selecionadas. O que a cativou não foram apenas a qualidade da execução e a diversidade de técnicas, mas também a forma de abordar diversos temas de uma maneira muito pessoal, que explora o universo interior de cada uma. “As conexões se dão em muitos níveis, começando pela influência de Frida no descobrimento da arte pré-colombiana e popular do México, que influenciou muitas dessas artistas”, explica. Ela comenta que algumas dessas conexões são evidenciadas de maneira literal, como em “La novia que se espanta al ver la vida abierta” (A namorada que se espanta ao ver a vida aberta), de Kahlo, que trata de sua relação íntima com Jacqueline Lamba. Ou mesmo “La balada para Frida Kahlo”, de Alice Rahon, que é um tributo à amizade de Kahlo e Rahon.

A organização da exposição é feita a partir de núcleos temáticos, que mostram como Frida e outras mulheres surrealistas abordaram temas diferentes em sua arte: a auto-representação, a natureza morta simbólica, o corpo, o casamento, a maternidade, o âmbito doméstico, o mundo da magia, entre outros. A inspiração partiu da trajetória profissional de Teresa, historiadora de arte, que ao longo de 3 anos foi curadora chefe do Museu de Arte Moderna da Cidade do México. Ela reforça a importância de sua seleção feita ao Instituto Tomie Ohtake devido à variedade de artistas talentosas que possuem uma obra pouco conhecida. Acrescenta, ainda, que apesar da dificuldade em filtrar todas essas obras, um dos pontos altos da exposição é justamente esse “diálogo” estabelecido entre as mulheres.

Depois de conversar com a curadora da exposição, resolvi procurar alguns admiradores do trabalho de Frida e encontrei a dramaturga e mestre em artes Viviane Dias. Entre tudo que a cativa no trabalho de Frida, o que mais a impressiona é a forma como a artista se recriou por meio da arte. Em sua opinião os autorretratos são mal compreendidos, associados a um culto pessoal e narcisista. “Para mim, Frida criava e recriava sua posição no mundo a partir dos autorretratos”, pontua. Algo que ela procura anunciar em sua peça, “Frida Kahlo – Calor e Frio”: “os autorretratos firmam uma posição ativa e criativa – em que Frida nunca aparece só, mas rizomática, ligada a todo um universo através de fitas, fios, espinhos, cabelos”, explica. Durante sua pós-graduação em pedagogia teatral na Universidade Nacional Autônoma do México, Viviane teve um contato muito próximo com o trabalho de Kahlo. Como já desenvolvia uma pesquisa no Brasil a partir da voz feminina na dramaturgia, envolveu-se a ponto de criar essa peça, que já foi apresentada em diversas cidades do Brasil, no México, no Chile e na Itália. A próxima temporada do espetáculo acontece entre os dias 31 de outubro e 5 de dezembro no Teatro Studio Heleny Guariba, em São Paulo

Para Teresa, os autorretratos possuem um peso ainda mais forte – é um tema que separa a produção artística dessas mulheres daquela de muitos homens vinculados ao surrealismo. “Além disso, um exemplo muito claro é o uso da natureza morta simbólica para contar histórias de amor e de perda”, acrescenta.

Em comum, tanto Teresa quanto Viviane citam a sensibilidade artística das mulheres ao falar sobre o feminino e a sexualidade. “O simples ato de ter a possibilidade de conceber muda por completo o olhar para o próprio corpo, por exemplo”, aponta Teresa.
Frida Kahlo, já conhecida internacionalmente, deve atrair a maior parte do público. Mas Teresa espera que todos se surpreendam ao conhecer a obra de outras grandes artistas, que entre ícones mexicanos criam uma confluência de grupos de exiladas europeias, como Remedios Varo e Leonora Carrington. E lembra, ainda, que além das pinturas o público confere algumas fotografias, dentre as quais destaca Kati Horna: “ela possui uma aproximação à figura de Kahlo não apenas como ícone, mas como uma artista multifacetada que foi uma figura de grande influência no desenvolvimento da arte no México”, conclui.

Compartilhe:

Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.