Um mapa até mim


Texto: Amanda Ariela // Arte: Raquel Thomé

Desde pequena, dizem para mim continuamente que sou “a cara do meu pai”. Se eu me comporto de certa maneira ou se tomo determinadas atitudes, minha família materna, que me criou, costuma dizer que estou “igualzinha ao meu pai”.

Não é preciso ir muito longe para descobrir pessoas com problemas com seus pais, só com a mãe ou só com o pai. Eu caí na terceira categoria e já fiquei quase 4 anos sem falar com meu genitor secundário. O fato de sempre fazerem comparações entre nós dois sempre me incomodou muito, porque nunca vi meu pai como meu grande herói ou uma pessoa boa e altruísta. Era como se, só por sermos parecidos e compartilharmos 50% de nossos genes, eu seria uma pessoa tão egoísta, manipuladora e gananciosa como ele.

Qualquer psicólogo treinado diria – como disseram para mim – que eu estava projetando meus defeitos nele. Tudo aquilo que eu detestava em mim, eu estava jogando nele. Em partes, posso dizer que sim, era isso. Em outras, meu pai realmente é uma pessoa ruim e eu tenho 22 anos (e algumas encarnações anteriores) de mágoas para falar sobre isso com propriedade.

Mas, chafurdar nesses sentimentos não vai me fazer ser uma pessoa melhor ou vai me ajudar a superar tudo isso, não é? Então, como é que eu paro de projetar e paro de achar que sou uma pessoa “50% horrível” porque meu pai é uma pessoa horrível?

Certa vez Nelson Mandela escreveu que “[…] eu era a soma de todos os patriotas africanos que vieram antes de mim. Aquela fila longa e nobre terminou e agora se iniciava novamente comigo. Era doloroso para mim por não poder agradecer-lhes e por eles não poderem ver o que seus sacrifícios haviam forjado.”

A reflexão não tem nada a ver com o meu relacionamento com meu pai e nem é sobre o relacionamento de Mandela com seu – ou o meu – pai. O parágrafo foi escrito sobre o dia em que Madiba foi empossado como presidente da África do Sul, o momento em que o fim do Apartheid é consolidado. Ele reflete sobre todos as pessoas que lutaram antes dele ou junto com ele por um objetivo em comum e fala sobre a soma de pessoas e ancestrais que o fizeram ser presidente.

A frase também me fez olhar para todos aqueles que vieram antes de mim e que me fizeram ser quem eu sou hoje. Eu estou falando da minha mãe, das minhas tias, dos meus tios, dos meus avós maternos, dos meus avôs paternos, dos meus primos e até do meu pai: a minha árvore genealógica.

Sempre gostei de observar as pessoas. Tenho um gosto secreto por esperar meus colegas e amigos em lugares como o metrô, antes de sairmos para algum outro ponto, porque aí tenho uma desculpa para ficar parada na rua por certo período, só observando os outros. Gestos, falas, expressões faciais… Tudo isso diz alguma coisa sobre as pessoas que os fazem e, embora eu não me precipite em julgamentos, por vezes, gosto de criar histórias inteiramente ficcionais para aqueles que vejo na rua.

Chame isso de voyeurismo ou de “gosto peculiar por observar pessoas” ou  o que for, mas a grande verdade é que foi esse hábito que me ensinou que cada um em volta de você tem passado, presente e futuro e está travando alguma batalha pessoal.

Por isso, eu pensei: E se eu transferisse essa mania de observar os outros para observar os próprios membros da minha família? E se eu observasse a minha árvore genealógica como um mapa para me ajudar a entender a pessoa que sou hoje e a que posso ser amanhã? Da mesma forma que Mandela reconhece os esforços anteriores ao seu, para chegar a posição em que estavam, na situação atual, e se eu fizesse isso?

Gosto de imaginar minha tataravó paterna, que era Libanesa e que se mudou para o Uruguai. Eu sei como ela era fisicamente e sei que herdei a miopia dela, porque ela usava um óculos com armação de gatinho que é lindo demais. Como será que foi essa mudança para ela? De onde será que ela tirou coragem para fazer tamanha transição? Quais eram seus sonhos, seus amores, suas decepções e suas razões de viver?

Gosto de pensar na filha dela, minha bisabuela Rosa, que plantava roseiras que ocupavam quase todo o quintal da modesta casa dela, em San Jose de Mayo, no interior do Uruguai. Em fevereiro, quando estive lá, dormi na cama que era dela e dei de comer para galinhas que, talvez, também sejam descendentes das galinhas que ela criava.  A casa em que ela morava hoje é habitada pelos meus inúmeros primos. O lugar é simples e aconchegante e o banheiro ainda fica no quintal.

Gosto de visualizar meus bisavôs maternos, o Tata e a abuela Esther, la más preciosa, que também eram de San Jose de Mayo e gosto de imaginar o rosto doce do meu bisavô ao saber que hoje eu chamo minha avó de Tata, em homenagem a ele.

Gosto de pensar no meu avô e minha avó maternos. Eles se conhecendo em uma cidade super pequena…. Minha avó conta que, naquela época, ela era apaixonada por um outro moço de olhos azuis celeste. Certa vez, ela visitou uma cartomante, na companhia de uma amiga de escola. A mulher fez a leitura de mãos de minha avó e disse que “de fato, você é apaixonada por um homem de olhos claros, mas vai casar com um de olhos escuros”. Batata, meu avô tinha os olhos bem escuros, quase não dava para ver a íris deles.

Quando minha mãe era mais nova, também se apaixonou por um garoto de olhos azuis, mas acabou se casando com um homem de olhos escuros, meu pai. Nós ainda estamos em dúvida se a paixonite não resolvida por olhos azuis vai ser finalmente solucionada por mim. Veremos.

Gosto de imaginar meu avós durante a Ditadura Militar do Uruguai. Eles moravam perto da Universidade de Montevidéu, depois de deixarem San Jose de Mayo. A universidade era palco de grandes protestos contra a ditadura militar e, nessa época, eles já tinham 3 filhos, mamãe era a caçula. Certa vez, durante um protesto, começou uma correria em frente à casa deles e uma jovem morena pediu ajuda para minha avó, que estava na porta. Os militares estavam seguindo-a e a garota estava com medo do que poderiam fazer, caso ela fosse pega. Provavelmente sem pensar duas vezes, minha avó permitiu que ela entrasse em casa. Minha Tata vestiu as roupas que a menina estava usando e saiu para a rua. Os militares estavam esperando do lado de fora e, depois de seguirem minha avó por alguns quarteirões, pararam ela. Quando viram que a mulher loira não era a jovem morena que eles estavam procurando, deixaram ela ir.

Pouco depois disso, minha família veio para o Brasil. Imagino minha tia, deixando para trás sua terra, da mesma forma que minha bisavó. Deve ter sido difícil deixar o lugar onde ela cresceu e por onde ela ainda nutre um amor incondicional, marcado na pele.

Gosto de imaginar meu vô paterno, que sempre foi muito humilde e dócil, saindo de sua terra no Nordeste e vindo primeiro para Minas Gerais, onde conheceu minha avó, e depois para São Paulo, para tentar uma vida melhor. Infelizmente, ele não lembra muito de seus pais e avós, então tenho que usar minha imaginação para reconstruir esse lado.

Meu bisavô paterno, por parte de avó, era um empreiteiro de obras que fez sucesso. Rapidamente, ele começou a ser chamado para fazer obras públicas na cidade mineira em que moravam. A minha bisavó passou a ser convidada para ser parte da sociedade e tudo mais, até que ele faleceu e ela passou a ganhar vida costurando vestidos para as moças da sociedade que ela frequentava. Pouco tempo depois, ela também faleceu. Quem terminou de criar minha avó, que era a filha caçula, foram os irmãos dela, que trabalhavam para que ela conseguisse ter uma educação mais sólida.

Como Mandela escreve: “Aquela fila longa e nobre terminou e agora se inicia novamente comigo”. Eu sou o resultado de todas essas trajetórias de vida, dessas mudanças de país, dessas lutas, desses amores e dessas vitórias.

Caminhando pelos vales dos amores das mulheres da minha família, subindo as montanhas das conquistas, independências e libertações que todos eles conseguiram, atravessando oceanos físicos e imaginários, nadando por rios de lágrimas de tristeza e de felicidade e cruzando desertos de superação; minha árvore genealógica é parte intrínseca de quem eu sou hoje e não é porque parte dela é horrível, que eu também serei uma pessoa horrível.

Sou eu quem faço minhas próprias escolhas e minhas próprias decisões, sou eu quem dito as regras e sou eu que cometo meus próprios erros. Como diz o poema “Invictus”, de William Ernest Henley, muito admirado por Nelson Mandela: “Eu sou o senhor de meu destino/Eu sou o capitão de minha alma.”

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