Um breve guia de sobrevivência para não cair no abismo


Texto: Lidyanne Aquino // Arte via bookingweird.tumlr.com

Deixo meus pés à beira do abismo e admiro a beleza de poder enxergar do alto. Tão bonito o rosto, penso. Tanto um buraco sem fim e quanto a imensidão têm dessas. É mais fácil observar de longe, quando tudo parece intocável e de uma beleza expressiva. Será que os prédios com vista panorâmica conquistaram fama assim? Do alto experimentamos esse quê de fotografia bem feita, pintura poética, um amontoado de informações e a impossibilidade de perceber os detalhes. De tão bela a visão chega a ser sedutora, dá vontade de se jogar nesse vazio mesmo sabendo que tudo está perdido e o vazio que te espera lá embaixo é de concreto, cinza, meio sem vida e tão desgostoso quanto a realidade.

Me pego sem saída quando penso no que fazer. Parar de admirar para me atirar de vez, ou dar um passo para trás, descer e tocar os detalhes com as minhas próprias mãos?

Quando bate desespero, é essa a imagem que invade minha mente, seguida do estado de vulnerabilidade ante o mundo e minhas próprias ações. O clássico “se não dou conta nem de mim, quem dirá de outrem”, e de tanto tomar tropeços em uma realidade toda desgraçada da cabeça fica difícil saber qual rumo tomar. Após muitas crises de ansiedade e meses de acompanhamento com psicólogo e psiquiatra, aprendi algumas medidas para não sucumbir às tentações do abismo. O primeiro deles é o mais fácil em teoria: respirar. Já prestou atenção em como você respira, e como esse simples ato pode parecer um fardo em momentos de desespero? Dá para sentir os pulmões ardendo nessas horas, tamanha agonia. É como quebrar os limites do corpo. Nessas horas vale tudo – o exercício que você aprendeu na Yoga ou mesmo um bom aplicativo (recomendo o Headspace e o Pacifica). Muitos deles oferecem opções rápidas para momentos mais urgentes e em questão de cinco minutos já dá para se sentir um pouco mais confortável.

Segundo passo: descer. A vista do Pão de Açúcar no Rio, do Martinelli em SP, do Empire State Building em NY ou da Torre da TV em Berlin – pegando exemplos mais clichês – são de tirar o fôlego, seja de deleite ou desespero. É preciso optar pelo plongée e mergulhar para visualizar tudo de perto.  Encarar o problema de longe parece confortável, quando na verdade só alimenta a agonia. O terceiro passo é um desdobramento do segundo: não ter medo de tocar os detalhes. No processo de descida você pode tocar o objeto e virá-lo para analisar cada detalhe. Dá medo, é verdade, mas tem muita ferida interna com a necessidade de ser observada. É isso, ela quer ser vista, desvendada, cutucada. Dói, e é feio. De tanto enxergar feridas o desconforto vai embora e as coisas passam a cicatrizar com mais facilidade.

Quarto passo: desligar o celular. Ter ajuda é lindo, mas a gente precisa aprender a enfiar o dedo na ferida sem sentir nojo e estudá-la de perto por conta própria. Redes sociais nos deixam doidas da cabeça, notificações de whatsapp e telegram então, nem se fala. Isso nos leva ao quinto passo – e não se assustem com o número de etapas, lembrem-se que um item puxa o outro e todos devem ser executados sem pressa – encontrar uma atividade forte o suficiente para concentrar essa energia irradiante e descontrolada. Não pode ser uma cobrança. Para mim, só funciona deitar na cama e ouvir músicas, ou ler um livro, ou sair para correr. Em estágios mais avançados, quando consigo ter rédeas da situação, é o momento de meditar. Para outros, funciona sentar e desenhar, escrever, dançar. Toda cobrança deve permanecer ausente – só escrevo nessas horas se preciso MUITO tirar algo do peito, caso contrário deixo de lado para evitar a exigência de escrever algo “perfeito”. É primordial encontrar o caminho rumo a um refúgio todo seu.

Esses pequenos exercícios ensinam muito sobre ter paciência e encontrar seu tempo. A sociedade tende a nos sufocar tanto que muitos detalhes passam despercebidos. Nos inibe até mesmo de tirar um tempo para sentar em café e comer um doce em paz – pois imagina, tanta coisa para fazer em casa, o freela inacabado, a falta de companhia, o medo de parecer uma tola solitária… brincar de elencar desculpas é uma atividade perversa, embora seja uma das favoritas das pessoas ansiosas. Permita esse espaço ao autoconhecimento, ele vai te deixar mais tranquila até mesmo para se livrar dessas pequenas ‘culpas’ diárias.

O sexto e último passo é fazer a sua parte. Qualquer pequena ação conta, e não dá pra esquecer que nossos braços não são grandes o suficiente para sustentar o mundo. Quem encontra o equilíbrio necessário para lidar com a bagunça que é sentir demais se fortalece aos poucos e consegue ter força suficiente para ajudar o universo ao seu redor aos poucos. 

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.