‘Tudo se ilumina’, Jonathan Safran Foer


   Original: Everything is illuminated
   Autora: Jonathan Safran Foer
   Editora: Rocco
   Nota: 5 estrelas

Publicado em 2002, “Tudo se Ilumina”, o primeiro livro do norte-americano Jonathan Safran Foer (que na época tinha apenas 25 anos!), foi transformado em romance a partir da tese que o autor desenvolveu em Princeton, onde fez graduação em filosofia. Em função de sua pesquisa, Foer foi em busca das origens de sua família, e por isso partiu para a Ucrânia a fim de colher informações sobre o avô que não conheceu. Insatisfeito com as respostas encontradas durante a viagem, o escritor preencheu o vazio que sentia em relação a suas descobertas através da literatura.

“Memory was supposed to fill the time, but it made time a hole to be filled. Each second was two hundred yards, to be walked, crawled. You couldn’t see the next hour, it was so far in the distance. Tomorrow was over the horizon, and would take an entire day to reach.”

Aclamado por sua estrutura inovadora, o livro costura duas histórias de cunho autobiográfico: a viagem de Foer pela Ucrânia à procura da aldeia de origem de sua família, chamada Trachimbrod, e seu processo de escrita durante essa viagem; e em paralelo, vivências ficcionais de personagens moradores dessa mesma aldeia no passado. O próprio autor se refere ao formato do livro como uma colagem. Há variação de narradores, tempo e espaço, fantasia e realidade, mas a sensibilidade e a emoção nunca deixam de estar presentes.

Sendo assim, a história contada em “Tudo se ilumina” mescla biografia e ficção – Trachimbrod realmente existiu e era um shtetl (pequena cidade de população predominantemente judaica) na Polônia antes do Holocausto, lugar onde a mãe do autor nasceu. Foer se apropriou de suas próprias experiências durante a viagem que fez no local, e preencheu as lacunas da história de sua família com um material subjetivo e tocante. O livro consegue equilibrar passagens imersas em um tom de fábula absoluto com momentos de puro humor e leveza.

O protagonista do livro, homônimo do autor, contrata o jovem guia ucraniano Alexander “Alex” Perchov para auxiliá-lo na busca de Augustine, mulher que teria salvo a vida de seu avô durante o extermínio nazista no pequeno povoado de Trachimbrod. Alex entra em êxtase por participar da missão, já que é extremo entusiasta da cultura pop norte-americana, apesar de Jonathan ser o primeiro americano que ele conhece. Na companhia do avô de Alex, que alega estar cego e por isso tem um cão guia (a cadela Sammy Davis Jr. Jr.), os quatro caem na estrada armados apenas de uma fotografia de Augustine, mapas, relacionamentos mal resolvidos e muita expectativa.

Aos poucos, vamos entrando em contato com o passado de cada um dos personagens, seus segredos, aspirações, arrependimentos e medos. Foer encontra liberdade e tem a habilidade de integrar questões do Holocausto, culpa, identidade cultural e memória, sem deixar de lado o cuidado com a narrativa, que é de um lirismo impressionante.

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O livro é com certeza um dos meus favoritos e mais próximos do meu coração, e existe uma explicação afetiva pra isso: meu bisavô era judeu e viveu na Ucrânia antes da guerra. Lendo o livro, senti como se cada uma das palavras tivesse sido escrita pra mim, sobre mim e sobre tudo aquilo que estava lá dentro e eu não sabia. 

O ator Liev Schreiber foi um dos leitores que ficou fascinado pelo livro, o que o fez decidir por adaptar a obra e realizar seu primeiro filme (em português, “Uma vida iluminada”), e único até o momento. O próprio Schreiber construiu o roteiro de seu longa, que apesar de conter algumas mudanças narrativas consideráveis em certos momentos da trama, segue muito bem as linhas gerais da construção do livro, a subjetividade dos personagens e a atmosfera criadas por Foer, que aparece como protagonista tanto no livro como no filme (interpretado por Elijah Wood).

Para nos sentirmos completos, estamos sempre buscando ligações com nossas origens, nosso passado, nossa essência. Mas o que esse livro explora é que, apesar do esquecimento trazer sofrimento, viver mergulhado em um passado distante pode ser ainda mais difícil. Afinal, como diz Foer: “The only thing more painful than being an active forgetter is to be an inert rememberer.”

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Sobre Ana Levisky

Ana terminou seu Mestrado na Irlanda e tenta se convencer de que Processo Criativo é sim uma área relevante de estudo. Quando tem tempo faz filmes, já que se formou pra isso.