“Tudo junto e misturado”, Ann Brashares


Sasha e Ray dividem um quarto na casa de praia, mas não se conhecem pessoalmente. Sasha é filha de Robert, Ray é filho de Lila. Robert e Lila eram casados e tiveram três filhas juntos, mas depois do divórcio preferem evitar um ao outro o máximo possível. O elo entre eles é, além da casa de praia da qual nenhum quis abrir mão, as três filhas, Emma, Quinn e Mattie, as únicas que têm a possibilidade de viverem esses dois mundos diferentes.

Parece complicado de entender? A dinâmica familiar de Tudo junto e misturado (tradução de Cristian Clemente) é única, e demora um pouco para saber quem é quem na família e se acostumar com os personagens. Embora Ray e Sasha sejam os protagonistas, também há espaço para o trio de irmãs ganhar voz e conflitos próprios, tornando assim um total de cinco ponto de vista diferentes, todos narrados em terceira pessoa.

Não se pode dizer, no entanto, que essa multiplicidade de pontos de vista é novidade para Ann Brashares: sua obra mais conhecida é A irmandade das calças viajantes, na qual a autora narra as férias de quatro amigas. Se nessa série ela consegue criar quatro personagens com personalidades e questões mais desenvolvidas, em Tudo junto e misturado falta espaço para isso, e ao mesmo tempo que simpatizamos com alguns personagens, sentimos falta de maior profundidade neles.

Dados os conflitos de cada um, não posso deixar de dizer que, embora eu entenda o motivo do foco em Sasha e em Ray, são eles que têm a parte menos interessante da história. O relacionamento deles parece estranho e um pouco forçado. Dá para entender a conexão dos dois, mas a relação poderia ser explorada por um ângulo menos clichê – o ponto de vista de Ray chega a ser um pouco incômodo de ler em algumas partes, por ser um pouco machista.

O maior conflito da história, que une todos os personagens, é a recusa mútua de Robert e Lila se aceitarem e ficarem juntos no mesmo lugar em harmonia. Fiquei curiosa para saber como isso seria resolvido, e devo dizer que a Ann Brashares usou um dos artifícios que eu menos gosto para solucionar o problema, e não é o primeiro livro em que ela faz isso. Dito isso, talvez eu que não estivesse preparada para esse final; alguém que captasse as dicas desde o começo provavelmente estaria mais pronto para aceitá-lo.

Apesar da minha decepção com a resolução dos conflitos, devo dizer que achei a leitura bem envolvente. É fácil entender as questões dos personagens e o relacionamento deles é bem explorado. Quem gosta de dramas familiares, portanto, tem grandes chances de aproveitar Tudo junto e misturado.

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Sobre Marília Barros

Marília é paulistana e estuda Letras. Gosta de bibliotecas, de animações e de coelhos. Não é a preguiça da foto, mas bem que gostaria de ser.