“Tu não te moves de ti”


Texto: Lidyanne Aquino // Arte: Natália Damião

“Para onde vão os trens meu pai?

Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços

no mapa, e depois o pai ria: também

pra lugar algum meu filho, tu podes

ir e ainda que se mova o trem

tu não te moves de ti”

 

Hilda Hist

 

Cada mudança de endereço deixa aquela sensação de que uma simples troca de dígitos vai mudar a sua vida num passe de mágica. Parece só uma consequência da nova perspectiva – não saber o que nos aguarda na nova fase alimenta a falsa sensação de que assim como nos descartamos de muita tranqueira no processo de encaixotar as coisas, deixamos para trás uma bagagem de sensações que não podem nos pertencer mais. Mudar de casa é mudar de vida, ao menos assim parece. Nos preenchemos de expectativa como se fosse primeiro de janeiro – cheio de metas traçadas e um bocado de esperança.

Minha infância foi cheia de mudanças de cidade devido ao trabalho do meu pai. Criar vínculos neste contexto nunca foi fácil, mas enquanto criança nunca foi um incômodo. O começo costumava ser duro, porém não tardava a me adaptar à nova rotina. Com o tempo tornou-se um reflexo do meu anseio por mudanças na vida adulta. Como se buscasse me testar: quanto tempo levarei até me adaptar? Quais vão ser os desafios desta vez? Existe algo de muito sedutor em encarar um novo caminho. Sabe aquela sensação boa de matar a fome? A possibilidade de recomeçar sempre acabava me saciando.

E foi de uma intensidade tão grande que passar muito tempo no mesmo local começou a me deixar desconfortável. Sentia que meu corpo tinha um limite de cinco anos em cada cidade. Algo nele diz que mudar de cidade vai ter algum efeito mágico de mudar a minha vida. Como se fosse simples assim.

Quando você está em um ambiente conhecido é mais fácil encontrar pontos de fuga. E a nossa tendência é, de fato, tentar fugir ao invés de resolver o problema. Se você opta por uma manobra mais ousada e muda de país, o risco de cair em outro buraco ao tentar fugir daquele que você já conhece é alto. Não existe colo de mãe, não dá para ligar para uma amiga e ir chorar as pitangas no café mais próximo.

Optei por este extremo e debandei para o outro lado do oceano. Tornar-me expatriada parecia de longe a melhor a melhor solução para este anseio de mudança. O frio na barriga do primeiro mês é velho conhecido, mas agora seria diferente – além dos contratempos de adaptação clássicos havia o desafio de encontrar um lugar em um país que não partilha a mesma língua, nem a mesma cultura, muito menos os mesmos direitos. Para quem tem a famigerada coceira de mudança a proposta é deveras sedutora.

Mudanças te anestesiam em um primeiro estágio como qualquer novidade. O novo tem lá o seu atrativo, a sensação de não saber o que te espera é de fato maravilhosa. E independente do nível de deslocamento, você precisa dar conta de um sem número de tarefas – isso ocupa seus dias e pensamentos, não sobra espaço para ficar maluca com os problemas antigos pois você está ocupada demais surtando com burocracias. Em um dado momento a maré se acalma, e todas aquelas dores antigas voltam a despertar. Cheias de nuances e ainda mais desenvolvidas. Muito do que um dia te atingiu em pequenas proporções pode retornar mais agressivo, difícil de lidar. Não contentes em te localizar do outro lado do globo, as dores evoluem.

Elas nos encontram em qualquer canto do mundo. Um dos maiores desafios de grandes mudanças geográficas é lidar com o próprio silêncio e travar certas batalhas consigo mesmo. A literatura está cheia de autores dizendo que o silêncio é barulhento e bem, todos têm razão. De tanto conviver com a solidão você fica cada vez mais próximo da sua essência – e por estar tão perto não te resta outra opção: você começa a fazer uma triagem natural do que ainda te pertence. E talvez você descubra coisas desagradáveis e um tanto feias. Amadurecer é aceitar que você nunca vai ser um molde perfeito e inspirador para ninguém, muito menos para si mesmo, e que não há problema algum nisso. Crescer envolve aceitar defeitos e trabalhá-los até se tornarem confortáveis dentro da sua pele. E acredite: em meio a tantas disputas você também vai se surpreender com qualidades nunca antes pensadas.

Se um dia você cogitou uma mudança enquanto fuga, tudo bem: basta repensá-la e livrar-se de esforços para bloquear os contratempos. Tudo que nos é mais íntimo tem GPS. E quando ele te encontrar, chame para um café, troque uma ideia, tente achar uma solução. Talvez um café não seja suficiente, mas persista. Faz parte do processo.

Ainda que o avião corte o oceano, ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti. Já dizia Hilda Hist.

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.