Tropeços sentimentais


Texto: Odhara Caroline // Arte: Luísa Granato

O que eu mais gosto ao aprender uma nova língua é descobrir as suas expressões idiomáticas. É um jeito de entrar devagarinho no imaginário comum das pessoas que nasceram em meio àquele vocabulário, descobrir as imagens que povoam a cabeça de quem construiu o próprio mundo usando tijolos tão diferentes dos meus.

Sempre me vêm à cabeça, por exemplo, a expressão francesa fleur de trottoir. Ela é usada para se referir às prostitutas e significa, literalmente, “flor da calçada”.

Também gosto do jeito que o inglês sempre relaciona o amor à gravidade. Como a comparação entre se apaixonar e cair no sono, que John Green usa em A Culpa é Das Estrelas (“I fell in love like you would fall asleep: slowly and then all at once”). Ou então aquele conceito meio bizarro de imprinting que a Stephanie Meyer criou para a Saga Crepúsculo — um afeto tão forte que, quando Jacob o sentiu por Renesmee, deslocou o centro gravitacional do cara (“A gravidade da Terra não me prendia mais ao lugar em que eu estava. Agora era a garotinha nos braços da vampira loura que me mantinha ali. Resnesmee”).

Em inglês, você não se apaixona. Você cai no amor, esperando que consigam te pegar. Você fica de cabeça pra baixo, os saltos do sapato acima da sua cabeça. Eu acho o português um idioma lindo e rico, mas, quando se trata de amor, eu ainda gosto mais das imagens que o inglês evoca.

O amor tem a capacidade de tirar as pessoas do lugar.

Dia desses, colocava o papo em dia com uma amiga que não via a alguns meses. “Essa é a questão: eu não sou assim”, ela protestou quando eu disse que a ansiedade que ela vinha sentindo por causa de uma paixão era comum – e então completamente normal. “Quando isso passar e olhar pra trás, eu nem vou me reconhecer”.

Mas eu nunca acreditei que isso fosse, necessariamente, ruim. Li em algum lugar que, onde há amor, há transformação. Se o sentido da vida é sair diferente de como quando a gente entrou, talvez essa mudança de centro de gravidade tenha uma função muito mais grandiosa do que simplesmente unir duas pessoas. Talvez tudo vire de ponta cabeça quando a gente se apaixona pra que possamos, aos poucos, finalmente cair nos lugares certos.

Compartilhe:

rodrigues.odhara@gmail.com'

Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco. Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).